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domingo, 6 de março de 2011

O nascimento

Aviso aos navegantes: este é um relato frio sobre os acontecimentos que envolvem o meu parto das gêmeas. Embora eu me emocione ao lembrá-los, quis contar a parte prática da coisa. As fotos são de quando já tinham quase duas semanas, já que as do dia do nascimento eu já mostrei em outro post aqui.

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Estava fazendo um pré-natal normal com meu GO aqui em Cachoeira, mas meu neurologista estava informado sobre a gestação. A princípio não me deu nenhuma recomendação especial, exceto de esquecer o Avonex e iniciar com o Copaxone assim que ele chegasse para mim (essa recomendação foi diferente na gestação da Letícia mas em todas as duas me causou problemas para amamentar). Mas quando descobrimos que eram gêmeas a coisa mudou de figura. 

Eu já tinha sido encaminhada para a Enfª Suzana, uma querida que se tornou muito amiga e que me encaminhou para a equipe de gestação de risco e fazia também o pré-natal lá em Porto Alegre. Eu já acalentava planos de ir pra lá quando faltassem algumas semanas para que meus bebês nascessem lá, por ter mais recursos e porque (por indicação do meu neuro), a cesariana era uma probabilidade quase certa.

Sendo assim, já me preparava para ir pra lá e ficar hospedada na casa da minha dinda, porque alguns exames mostraram uma pequena alteração na minha glicose e aqui o GO não deu muita importância e nem sequer tratava minha gestação como sendo de risco, mas em se tratando de gestações gemelares, elas sempre são de risco, no meu caso aumentado pela minha idade e pela Esclerose Múltipla.

As viagens também estavam sendo um suplício, meu marido me acompanhava sempre, mas era muito cansativo, o verão ajudava a piorar o mal estar, eu estava mega inchada, parecendo um leão marinho e minha bexiga se resumia num pequeno dedal onde não cabia nada dentro, ia ao banheiro a cada 30 minutos, isso segurando muito.

Então, fui para uma consulta. Chegando lá a situação era a seguinte: pressão arterial alta, glicose alta, trabalho de parto prematuro e sangramento. Fui direto para o CO e já fiquei baixada. Marido voltou sozinho pra casa. Fiquei baixada por 4 dias e minha pressão se normalizou, minha glicose ficou sob controle e o sangramento e o trabalho de parto foram revertidos logo no primeiro dia com medicação e repouso. 

No amanhecer da segunda feira, acordei bem disposta e mandei um torpedo pro marido dando bom dia, dizendo que estava tudo bem e que ele fosse trabalhar tranquilo. Meia hora depois a enfermeira entra no quarto pra medir minha pressão e glicose, tudo normal e de repente, a bolsa estoura. Lá vai eu às pressa pro CO e mando outro torpedo pro marido: esquece o que eu disse antes, junta tudo e vem pra cá que vai nascer!

A doutora que me assistia ainda me mandou fazer uma ultra para ver se daria pra monitorar e manter os bebês lá dentro por mais algum tempo, mas o médico chefe da equipe ao ficar sabendo do ocorrido mandou ela suspender a ultra e me mandar direto pra cesárea. As palavras dele: A natureza sabe o que faz, se a bolsa estourou, é porque tá na hora de nascer.

E assim foi. A essa altura eu já estava em pleno trabalho de parto e ao me examinar o médico disse que eu já estava com 6-7cm de dilatação e quase já não dava mais pra fazer a anestesia. Correria. Mas anestesia feita, a dor passou, ficou só o pânico instalado definitivamente em mim. Mas aí foi tudo muito rápido. A preocupação era porque nestes dias de internação hospitalar eu havia feito vários ultrassons e via-se claramente os movimentos respiratórios da Camila, mas não se via os da Aline, que também tinha parado de se desenvolver do mesmo modo que a irmã e estava claramente menor, o que sugeria mais problemas se a gestação fosse mais adiante.

Aline, ainda alimentando-se por sonda
Camila já mais gordinha

Na mesa de cirurgia, com a diferença de apenas um minuto, conheci finalmente minhas filhas. Aline nasceu primeiro, pequenininha que só com 1.340kg, depois de colocarem ela perto do meu rosto pra ganhar um cheirinho, foi logo sendo enrolada enquanto a Camila nascia, um pouco maior com 1.695kg e com cara de poucos amigos. Também ganhou um cheirinho, colocaram as duas pertinho de mim, uma de cada lado (mas eu ainda estava imóvel, amarrada de um lado e do outro com fios e catéteres. Lá se foram elas para a UTI.

As horas em que fiquei na sala de recuperação foram as mais longas da história da humanidade. Eu queria ir logo vê-las, queria encontrar meu marido que ainda nem tinha saído de Cachoeira quando elas nasceram, queria notícias. Saí da recuperação e fui para o quarto e de lá, depois de um banho, fui ver minhas meninas. Estavam em salas separadas porque a Camila precisou de auxílio para respirar por mais de 24 horas, portanto em situação mais grave, depois disso não se separaram mais.

(pausa pra explicação)

Era a Aline de quem não se viam os movimentos respiratórios, mas ela nasceu respirando bem enquanto a irmã precisou de ajuda. Meu marido costuma dizer que ela sabia que a irmã estava com problemas, por isso causou os dela para que nascessem logo e a irmã pudesse ficar bem. Hoje, vendo o temperamento e o jeito dela com a irmã, também acredito que isso possa ter sido possível.
(despausa)

A emoção que senti no momento em que elas nasceram era um misto de muito medo e alegria. O medo de que ainda não fosse suficiente o tempo em que ficaram na minha barriga, de que não nascessem bem e a alegria de vê-las perfeitinhas, de ouvir o choro estridente da Aline e o choro mais forte porém contido da Camila. 

Ao vê-las nas incubadoras, dormindo suaves como anjos, mas todas cheias de fios para monitoramento, os pézinhos espetados por agulhas, Camila com aquele trambolho no rostinho para ajudá-la a respirar.. os sentimentos eram também contraditórios. Sabia que estavam bem, que era só uma questão de tempo, mas também as via tão vulneráveis e eu nem podia agarrá-las no colo e dar o meu carinho. Chorei muito nos primeiros dias. 

Marido também não pode ficar, conheceu as filhas, fez o registro e voltou pra casa, me deixando lá me sentindo a mais sozinha das criaturas. Fiquei hospedada na casa da minha dinda e tinha o apoio e o carinho dela e da Dani, minha prima, mas sentia falta de casa, dos filhos que tinha deixado aqui, do marido, do cachorro, ate da sogra. Ia todos os dias ao hospital. Foram 36 dias de UTI, mas aí já é outro post.





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Comentários
4 Comentários

4 comentários:

  1. Olá, desculpe invadir seu espaço assim sem avisar. Meu nome é Fabrício e cheguei até vc através do Blog "relacionamento, vida e cotidiano". Bom, tanta ousadia minha é para convidar vc pra seguir meu blog Narroterapia. Sabe como é, né? Quem escreve precisa de outro alguém do outro lado. Além disso, sinceramente gostei do seu comentário e do comentário de outras pessoas. Estou me aprimorando, e com os comentários sinceros posso me nortear melhor. Divulgar não é tb nenhuma heresia, haja vista que no meio literário isso faz diferença na distribuição de um livro. Muitos autores divulgam seu trabalho até na televisão. Escrever é possível, divulgar é preciso! (rs) Dei uma linda no seu texto, vou continuar passando por aqui...rs



    Narroterapia:

    Uma terapia pra quem gosta de escrever. Assim é a narroterapia. São narrativas de fatos e sentimentos. Palavras sem nome, tímidas, nunca saíram de dentro, sempre morreram na garganta. Palavras com almas de puta que pelo menos enrubescem como as prostitutas de Doistoéviski, certamente um alívio para o pensamento, o mais arisco dos animais.


    Espero que vc aceite meu convite e siga meu blog, será um prazer ver seu rosto ali.


    Abraços

    http://narroterapia.blogspot.com/

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  2. Os seus relatos, este e o do post anterior, são emocionantes. O que mais impressiona é o modo positivo como que você encara as dificuldades e, mesmo com a doença, não desistiu de seu sonho e engravidou novamente. Isso é um exemplo de garra e amor pela vida, meus sinceros parabéns por ser a pessoa que é!
    Beijo no coração
    Adri

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  3. Tuka, to com vontade de chorar! mas de alegria! ja' te contei que sou gemea, ne? E talvez por isso sempre me emocione mais com historias de gemeas! Ai, ai, ai... que gostoso o amor... que paixao ter filhos... que bom recordar o sufoco e olhar pra elas agora, ne? Mil bjs!

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  4. Post delícia de ler...

    é emocionante ler esses posts onde vc conta os momentos que foram tão difíceis pra vc...

    e com um requinte de detalhes que quem lê, sente como se estivesse lá..

    esotu eu aqui, aguardando a mais um capítulo da homenagem às gêmeas lindas!!!
    beijos Tuka

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