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terça-feira, 8 de julho de 2014

A copa das copas



Eu amo copa do mundo. Curto futebol, torço pelo meu time, mas copa do mundo me comove.

Quando o Brasil foi escolhido para sediar esta copa, me senti dividida. Certamente tínhamos inúmeras outras prioridades para investir, mas confesso que, otimista incurável que sou, acreditei que talvez fosse bom para o país, que obras seriam feitas e que nos restaria de fato algum legado.

Próximo do início do evento, o clima pesou. O coro daqueles que eram contra a copa engrossou e tornou-se uma ameaça. Embora eu concorde com os argumentos dos anticopa, acredito que cancelar o evento à beira do seu início seria ainda mais prejudicial ao Brasil. Já que preparamos tudo, então que se vá até o fim.

E foi lindo quando começou. Tive o prazer e presenciar uma “pontinha” quando estive em Porto Alegre no dia do jogo Argentina e Nigéria e vi uma invasão de estrangeiros na cidade. Apesar de ser assustador ver tanta gente na rua (sou neurótica com multidões) tenho que admitir que não vi nem um traço sequer de agressão, violência ou animosidade. Só alegria, congraçamento, comunhão.

O povo brasileiro deixou de lado as rusgas e como sempre, torceu. E o clima de copa do mundo, aquela delícia, estava espalhado por todo nosso país. Fomos elogiados mundo afora pela nossa hospitalidade e até - pasmem! - pela organização.

Imagem: Internet
Sim, é alienante, só se fala de copa. Mas não somos mais tão bobos. Em nenhum momento esquecemos-nos das mazelas políticas, dos desvios de verba, das obras inacabadas e das nossas prioridades deixadas de lado para a realização da copa.

O jogo contra a Alemanha foi humilhante. Uma derrota que jamais será esquecida. Mas perder faz parte do jogo. Espero que o povo não se esqueça do quanto se emocionou e vibrou enquanto as vitórias vieram.

Ainda resta um bocadinho de copa. Nossa seleção está fora. Mas ainda somos os anfitriões. Que sejamos civilizados o bastante para manter a imagem que passamos para o mundo até agora, de que somos hospitaleiros, alegres e educados. E que ao encerrar o evento no domingo possamos inflar o peito de orgulho e dizer que apesar de sermos contra a realização, protagonizamos a copa das copas, um evento ímpar e inesquecível.

domingo, 8 de junho de 2014

Quando os filhos saem de casa.

Allyson e Yasmin
Meus bebês que já cresceram. Os passarinhos que já voaram do ninho.


Filho quando sai de casa nos causa 2 sensações muito distintas: a do dever cumprido, afinal se está saindo do ninho é porque já se sente preparado para seus voos solo, e a do coração partido, apertado, oprimido pela preocupação com o futuro, com as escolhas que tomarão sozinhos, sem nos consultar nem comunicar, pela ausência, pelo ninho vazio.

Quando o Allyson saiu de casa há 6 anos, eu vivi essa aflição. Mas ele foi criado por uma mãe adolescente que mal sabia cuidar de si mesma, sempre soube se virar sozinho. É independente, tem um espírito livre, indomável. Além disso, já tinha “me abandonado” aos 12 anos quando foi morar com o pai, voltou aos 15 para ir embora de vez aos 19. Passou pelo quartel, onde com certeza aprendeu lições valiosas para uma vida longe do ninho.

Nesta época, eu estava na reta final da gestação das gêmeas que nasceram um mês depois, então tive muito com o que me ocupar pra não ficar tão sensível pela falta que o guri fazia. Não que não me preocupasse com ele, me preocupo muito, sempre, perco o sono às vezes pensando no meu filhote, longe da minha proteção e do meu carinho.

Agora foi a vez da Yasmin. Essa sempre foi mais mimada. Ao contrário de mim, o pai sempre foi mais super protetor, sempre fez as vontades e deu tudo nas mãos. Ela é inteligente e super responsável, mas lhe falta a experiência, a vivência. Sempre me ajudou muito em casa e com as crianças (faz uma falta!), mas nunca teve obrigação. 

No final do ano passado, quando o namorado foi morar sozinho, eu já sabia que logo que completasse a maioridade ela iria morar com ele. Sabia por conhecer a filha que tenho, que apesar de meiga e delicada, tem um gênio forte e sabe bem o que quer. Passei então a preparar o meu espírito e o do pai, aquele super protetor e que também é bem ciumento.


Quando o fato efetivamente se deu, eu já estava bem preparada (mentira!). Ao contrário do irmão, que saiu de casa pra estudar, ela foi morar com o namorado, que é um rico de um guri, mas também é ainda um menino. Talvez por isso me preocupe de forma diferente.

Tenho a consciência tranquila, sei que passei para os meus filhos os valores de pessoas de bem e eles sabem que apesar das dificuldades as portas da nossa casa nunca serão fechadas para eles. Isso me dá uma certa tranquilidade, saber que "se der ruim", eles tem pra onde correr.

Hoje fomos almoçar na casa dela. Foi bacana ver ela cuidando das coisas dela, preparando a casa pra nos receber, se preocupando com o que não estava bem ou faltando, os dois querendo agradar. Ver que minha menininha mimada, também sabe se virar. Ao mesmo tempo, dá vontade de colocar no colo e trazer de volta pra casa!

Enfim, ainda vou passar por isso mais 3 vezes ainda e é certo que com cada uma será uma situação diferente, com sensações diferentes. O que é certo é que a dicotomia alívio-aflição sempre existirá.

Quando os filhos saem de casa, é o último e derradeiro corte no cordão umbilical. É quando eles nos dizem em alto e bom som que não precisam mais da nossa ajuda, que lhes amarrem os sapatos, lhes aprontem o jantar, lhes lembrem de levar o casaco. E isso sempre dói um pouco. Mas eles sempre precisarão do carinho, do colo, das orações e eventualmente de conselhos. E dá um orgulho danado ver aquele passarinho desengonçado abrir suas asas com firmeza e alçar aquele lindo e imponente voo.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

O surtinho.

Há poucos dias passei por mais um surtinho. Fiquei bastante frustrada, já que vinha me sentindo super bem com o novo remédio. Mas não se pode culpar o remédio. Eu vinha sim, me sentindo super bem, também passei a me exercitar mais, com caminhadas e a hidroginástica que eu estava amando.

Aí tive que parar com a hidro, faltou o “faz-me rir” e precisei dar um tempo. Esse foi meu primeiro stress, fiquei muito chateada, deprimida mesmo em ter que parar. 

Depois, fiquei doente. Problemas gástricos me afetaram com certa violência por quase dois meses, arrematados com luxo por um gripão aqueles. Minha dieta foi pro espaço, minhas caminhadas também. Passei de um período em que me sentia super bem direto para um que me sentia mal o tempo todo. Fiquei naturalmente muito estressada com isso e como era até de se esperar, surtei. 

Foi um surtinho leve, o já conhecido formigamento no pé direito e muita tontura e desequilíbrio. Sintomas já bastante conhecidos e comuns nos meus surtos. Mas pra não perder o costume, faltava mais um estresse básico: a pulsoterapia

Fui à Porto Alegre e fiquei 3 dias lá, hospedada na casa da minha amiga Bruna pra fazer a pulso. Enquanto estive lá, tudo bem. Mas na volta pra casa a coisa ficou feia.

Já na viagem um acidente na estrada paralisou o trânsito e ficamos 2 horas parados no caminho, mas cheguei finalmente em casa me sentindo muito cansada, mas bem.

personagem Fofão com suas bochechas enormes.
Minha cara fica mais ou menos assim pós pulso.
No outro dia porém, os efeitos da pulso vieram com tudo. Inchei. Senti muita, mas muita dor por dias. Todo o meu tronco, braços, nuca, cabeça e rosto doíam como se eu tivesse caído um tombo, não podia tocar. Até a água do chuveiro caindo sobre o corpo me causava sofrimento intenso. Pentear os cabelos era impossível.

Mas finalmente o pior passou. Aos poucos começo a me sentir gente de novo. Ainda não estou me sentindo bem, mas já não me sinto tão mal.

Agora, espero só passar essa fase ruim (e o forte do frio que recém esta começando) pra poder voltar às minhas aulas de hidroginástica. Tenho certeza que parar com as aulas contribuiu muito pra essa fase ruim que quero deixar pra trás.

Aliás, uma constatação: apesar de eu ficar bem fadigada com o calor, de todos os meus surtos, só um foi no verão. Mais um motivo pra detestar tanto o frio.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Um dia...

Para marcar o dia mundial da Esclerose Múltipla, que tem por finalidade sensibilizar a opinião pública sobre a E.M. e as questões que a envolvem, a MSIF - Multiple Sclerosis International Federation sugeriu que pensássemos na acessibilidade, de uma forma ampla, visando o que se quer fazer, descobrir e alcançar - as nossas esperanças, aspirações e triunfos. Todos temos momentos "Um dia...", quem quer que sejamos e qualquer que seja nosso percurso de vida. Este é o meu.

Acessibilidade é um termo em moda. Muito tem se falado sobre este assunto nos últimos anos. Parece que finalmente se descobriu que para garantir direitos iguais entre os cidadãos é necessário dar-lhes condições iguais.

Obras para a copa do mundo, estádios, aeroportos, as supostas melhorias nos transportes e vias públicas já foram elaboradas pensando no acesso físico facilitado para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida.

Mas para mim, acessibilidade não é só facilitar fisicamente que um cadeirante use um ônibus ou entre em um prédio, mas diminuir  ou mesmo eliminar toda a burocracia que envolve o uso de bens e serviços, não só para deficientes mas para toda a população.

Um dia, espero que usar os serviços de saúde seja simples e comum, tanto para quem tem consulta marcada num ambulatório, quanto para quem precisa de um atendimento de emergência. Que ambos sejam facilitados e eficientes.

Um dia, espero que o transporte público seja tão bom que mesmo quem tem seu carro novo com ar condicionado prefira andar de ônibus ou trem, para que hajam menos congestionamentos nas cidades e menos poluição.

Um dia, espero que o acesso a uma educação de qualidade deixe de ser privilégio de alguns e seja caminho natural de todos: pobres e ricos, negros e brancos, "normais" e "limitados".

Mas o meu maior desejo, é que um dia desapareça do universo os termos "deficiente" ou "limitado" ou qualquer coisa parecida. Afinal, quem determina o que é deficiência? O que é limitação? Se para uns, ser deficiente significa não conseguir andar sem auxílio, para outros, deficiência pode significar ser incapaz de amar. Se pra você, sou limitada porque a fadiga me impede de fazer as tarefas comuns do dia à dia de uma dona de casa, pra mim você pode ser limitado porque sua inteligência emocional não te permite ser solidário e fraterno.

Imagem daqui

Enfim, meu desejo para o futuro pode parecer utópico, mas tenho certeza de que se nos empenharmos em transformar nossa maneira de nos vermos uns aos outros, de nos relacionarmos uns com os outros, se pararmos com essa bobagem de exigir perfeição de tudo quando sabemos que nós mesmo não somos e nem seremos perfeitos, a vida se tornará mais leve, as barreiras menores e mais fáceis de serem transpostas.

Se cada um de nós se empenhar em perceber que não somos o centro do universo, que somos uma pequena parte de um todo e passarmos a viver dessa forma, pensando no outro - não em função dos outros - como engrenagens de diferentes formas e tamanhos mas que se encaixam e juntas movem a máquina, veremos como a vida é simples, a gente é que complica.

Que nós possamos finalmente para de erguer muros e começar a construir pontes.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Filhos



Filhos dão trabalho, despesa, desafiam nossa paciência, consomem nossas energias até a exaustão.

Mas ao contrário do que parece, é bom demais ter filhos!

O trabalho que eles nos dão, é o que nos move, que atiça nossa criatividade para solucionar os mais diversos problemas, que nos faz agir mesmo quando só queremos a inércia.

A despesa, é um investimento em nós mesmos. Deixamos de enriquecer financeiramente a cada filho que nasce, mas vamos enriquecendo o espírito, as lembranças, as emoções.

Os desafios à nossa paciência são um aprendizado constante de tolerância, adaptação, resignação.

Eles nos exaurem as forças, mas nos restituem em dobro com um único sorriso, um abraço, um “te amo mamãe”.

Assim como colo de mãe e um beijinho no local certo cura muito dodói de criança, gestos espontâneos de afeto dos filhos curam cansaço, dor e depressão. Se pudesse ser embalado e vendido na farmácia....

Aprendi e aprendo muito com meus filhos todos os dias. Aprendi principalmente a entender minha mãe. Descobri que ela tinha razão na maioria das vezes e que quando não tinha ainda assim estava certa em me alertar porque afinal ela é minha mãe e as mães sempre querem o melhor para seus filhos mesmo quando não entendem que o melhor para elas pode não ser o melhor para os filhos.

Chegando o dia de homenagear as mães, quero dizer que quanto mais velha fico, mais preciso do colo da minha mãe, aquele lugar mais seguro e aconchegante que existe. E que o presente que espero dos meus filhos é que eles compreendam minha humanidade falha e me amem apesar disso e desejem sempre o meu colo também.

Meus bens mais preciosos.

Felicidades a todas as mães pelo nosso dia. 

domingo, 6 de abril de 2014

Médicos devem ser obedecidos, mas nem tanto.



O assunto sobre a mãe que foi levada a fazer uma cesárea contra a sua vontade por determinação judicial ainda fervilha, mas não é bem sobre esse assunto que quero falar, embora tudo o que eu digo aqui sirva também para o caso em questão.

Eu tenho um médico neurologista em quem confio plenamente. Depois de tantos anos de convivência, diria que somos até amigos, tenho liberdade pra falar sobre minhas dúvidas com ele e recebo em troca sempre respostas francas, ele já conhece todos os meus “mimimis” e já sabe como lidar com meu “gênio ruim”, tenho muita confiança nele e levo muito em conta suas opiniões e conselhos.

Mesmo tendo esse bom relacionamento com ele e muita confiança, não vou atrás de tudo o que ele me diz. Uso muito meu bom senso (ou a total falta dele) para acatar essa ou aquela determinação em meu tratamento ou na minha vida.

Médicos estudaram muito para serem médicos e tem cada um determinado nível de experiência, mas tem algo que falta a todos eles: eles não estão na nossa pele.

Mesmo num caso como o meu, onde meu médico conhece bem minha história, minha vida e minhas manias, é um especialista dos melhores que há em casos de esclerose múltipla, esta sempre estudando e se atualizando, ele não está na minha pele e nem vive minha vida. E tem coisas que simplesmente não concordo e não sigo.
 
Sempre que alguém me procura para falar sobre EM e gravidez, eu ouço alguém que em vez de estar sendo tranquilizada, minimizando a ansiedade própria da gravidez e que já nos causa tanto estress, está sendo ainda mais assustada pelos seus médicos com conselhos que são mais imposições do que realmente conselhos, apresentando um quadro infinitamente mais feio do que realmente é e deixando a criatura num beco sem saída, completamente sem opção.

Aconteceu comigo também, de uma forma mais branda, mas também meu neuro e meus GO's tentaram me impor que deveria ser desse jeito ou daquele. Teve coisas que não fiz, apesar da determinação dos médicos, porque achei que não eram necessárias ou que podiam ser de outra maneira e outras de que me arrependo de ter feito, indo contra o que gritava o meu senso interior.

Independente disso, meu conselho é que devam ter “aquela” conversa com seus médicos, franca, direta, expondo todas as dúvidas e temores e sendo firme em esclarecer principalmente aqueles pontos de que divergem. Nunca aconselho a desobedecerem a seus médicos, mas sempre a discordarem, discutirem, não se deixar levar pelas previsões alarmistas desanimadoramente contra a lógica, feita pela maioria deles principalmente no que se refere ao tipo de parto e amamentação.

No meu caso especificamente, assumi riscos e “peitei” as consequencias, mas cada caso é um caso e cada um é cada um e deve saber o que é melhor para si. Acredito que cada mãe deva ser esclarecida e conscientizada de suas reais possibilidades e riscos e que, baseadas nas suas variantes pessoais, tome suas decisões, faça suas escolhas. 

Não prego a rebeldia contra os médicos, mas não aceito que eles simplesmente imponham isto ou aquilo. Médico tem que esclarecer e não confundir ou simplesmente impor aquilo que for mais cômodo pra ele. A paciente tem o direito de conhecer suas alternativas, dentro do seu nível de entendimento, com todos os benefícios e riscos de cada uma e suas decisões devem ser respeitadas. E isso vale pra toda e qualquer situação.

Médicos sabem muito, mas não são donos absolutos da verdade, por isso devem ser obedecidos, mas nem tanto.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Hidroginástica

Há 3 meses tenho feito hidroginástica e estou adorando! Além de ser um exercício para o corpo, é também um ótimo exercício pra mente.
Eu sempre gostei de água. Amo o mar pela paz que ele dá, pela faxina mental que ele representa, mas uma piscina é a coisa mais maravilhosa que existe.

Só me trouxe benefícios. Além de estar me auxiliando a perder peso, está modelando o meu corpo, espalhando a gordura que ainda tem e dando firmeza aos músculos. O conforto que a água traz também é maravilhoso, refrescando nos dias quentes, acolhendo nos dias mais frios, tirando a sensação de peso do corpo, protegendo as articulações do impacto.

Eu digo que a hidro me devolve toda a mobilidade que a EM me tira. Se fora d’água sinto dor, me falta equilíbrio e me movimento com alguma dificuldade ficando facilmente cansada, na piscina tenho equilíbrio, força e mobilidade intactos, não sinto dor nem desconforto.

A hidroginástica e a piscina fazem eu me sentir livre.


 
No site wikipédia diz:

A hidroginástica é um exercício aeróbico feito em piscinas que tem como objetivo a manutenção profilática da saúde. Melhora a capacidade aeróbica, a resistência cardiorrespiratória, a resistência e a força muscular, a flexibilidade, além de proporcionar um gasto calórico de 260 a 400 kcal por hora.1 2

Vantagens

A prática da hidroginástica pode levar a menor impacto nas articulações, menor esforço nos movimentos e sensação de conforto causada pela água. A hidroginástica é indicada como atividade anaeróbica, pura e simples, e também indicada para aqueles que dela realmente precisam incluindo os portadores de problemas de peso, os mais diversos.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Vergonha

Esse sentimento cada vez mais se apodera de mim e também me faz sentir medo do que virá, do futuro que se apresenta para os meus filhos.

vergonhaSinto vergonha de um país belo e rico em recursos, livre de guerras e das grandes catástrofes naturais, ser um país tão pobre de espírito. Sinto vergonha por, de alguma forma, ter ajudado a eleger este desgoverno que aí está. Sinto vergonha de um povo que contribui com vaquinha pra ajudar mensaleiro corrupto pagar sua dívida com a justiça (se é que alguém contribui mesmo, porque né, tenho minhas dúvidas). Tenho vergonha de não saber mais em que acreditar, de duvidar da nossa imprensa dita livre e democrática, embora me recuse a acreditar que tudo o que a imprensa diz não passa de uma enorme teoria de conspiração como muitos querem me fazer crer.

Vergonha por nosso país tão necessitado de infraestrutura básica, se dispor a sediar um evento mundial tão grandioso quanto uma copa de futebol. No início, embora achando que o momento não era propício, até quis acreditar que sediar a copa nos faria crescer de alguma forma, nos traria benefícios, mas a cada dia que passa acredito mais naqueles que dizem que será o mico do século e que só nos trará mais atraso, dívidas e alguns elefantes brancos que não conseguiremos alimentar.

Vergonha de ver nos noticiários gente morrendo sem atendimento em porta de hospital, mulheres parindo em corredores, crianças nascendo sem assistência enquanto o Brasil banca o bonito financiando obras em Cuba. Vergonha de ver metrópoles como São Paulo parar por conta de um trânsito caótico enquanto o poder público não toma providências efetivas para melhorar o transporte público, que com raras exceções, é um fiasco no país todo. Vergonha de pagar impostos tão altos, e receber de volta serviços tão precários.

Vergonha de um povo que não sabe exigir seus direitos e quando o faz é de forma anárquica, sem método, permitindo que todo o tipo de oportunista ou mal intencionado se infiltre e gere dúvidas sobre sua legitimidade. Protesto não é bagunça, meus direitos acabam quando começam os direitos do outro, não se pode exigir direitos passando por cima de tudo o que é certo. Vergonha de um povo que acha que é certo fazer justiça com as próprias mãos, que ao presenciar um assalto ou algo parecido em que o delinquente é detido grita: – bandido bom é bandido morto – mas faz vaquinha pra ajudar mensaleiro, que vota de novo em parlamentar acusado de todo tipo de desmando. Que se enche de fúria e razão, apontando o dedo na cara de policial corrupto mas fura a fila do cinema e para em fila dupla na porta da escola do filho e acha isso muito normal.

A lista daquilo que me faz sentir vergonha é enorme e  encheria algumas páginas.

Enfim,  tenho vergonha de tudo que tenho visto e sinto medo. Sinto medo do rumo que as coisas estão tomando, da pré-barbárie em que estamos vivendo, do caos se instalando. Será que é tarde demais pra retomarmos nossa civilidade? Será que é tarde demais para mudarmos os rumos que nosso país está tomando?

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Félix e Niko

O tão aguardado e comemorado primeiro beijo gay no horário nobre no canal de tevê mais assistido do Brasil me fez finalmente tirar do fundo do meu coração uma história que há tempos tenho ensaiado em contar aqui.

Félix e Niko

Quando eu tinha 14, 15 anos – e toda semana me apaixonava perdidamente por alguém diferente – tinha um menino que era o sonho de consumo de 9 entre 10 meninas do bairro. Eu é claro entre elas.

 

Mas aí aconteceu de se mudar para lá um homem, jovem ainda mas já adulto, gay (o primeiro que conheci, vi de perto), e que passou a concentrar a atenção de todos os meninos da nossa turma, em especial o tal do sonho de consumo. Ignorante que eu era, alimentada pelas asneiras ouvidas dos adultos, passei a odiar a criatura com todas as minhas forças.

 

Não me lembro mais quais eram as meninas que compartilhavam desse meu sentimento, nem como elas lidaram com a questão, lembro só de mim e do quanto esse episódio me modificou.

 

Nós não entendíamos porque os meninos gostavam tanto de se enfiar no apartamento do cara e cada boato que ouvíamos acreditávamos ser verdade e começamos uma espécie de campanha de difamação. Havia de tudo nessas histórias, desde droga rolando solta como se não houvesse amanhã até coisas realmente impublicáveis.

 

Certo dia, já de saco cheio da situação, o cara desceu do seu apartamento e foi até nós e com toda a calma e elegância do mundo, nos convidou para conhecer o seu apartamento. Disse que nós falávamos mal dele, mas não o conhecíamos e que deveríamos dar a ele a chance de ao menos se apresentar.

 

Como disse, não lembro mais dos detalhes, mas sei que eu fui. Chegando lá ele nos mostrou todo o apartamento, que era igual a qualquer outro. Não havia nada de pornográfico, maquiavélico ou diabólico lá, era um apartamento comum, igual ao meu. Ele nos tratou como adultas e não como crianças e falou abertamente sobre sua vida e o porque dos meninos gostarem tanto de ir lá, porque ele os tratava como adultos, dava a eles a liberdade de falarem sobre sexo, romances, dúvidas. Lhes dava liberdade e conselhos. Era um lugar onde eram livres e se sentiam como adultos numa fase de tantas descobertas e incertezas.

 

Aos poucos, meio por curiosidade, meio por sentir essa mesma liberdade junto dele, nos tornamos amigos. Isso virou mais um motivo de guerra com minha mãe (entre tantos outros nesta fase difícil). Não que meus pais tivessem preconceito (pelo menos não abertamente), mas temiam principalmente pelo fato de ele ser mais velho, mais experiente e possívelmente capaz de me manipular.

 

Não vou ser hipócrita de dizer que não tenho nenhum tipo de preconceito, mas digo de cabeça erguida que luto com todas as minhas forças contra qualquer mínima manifestação deste tipo que surja em mim. Hoje procuro conhecer sempre o outro lado quando algum assunto me causa desconforto. Sou um ser imperfeito, mas aprendi lá atrás que conhecer é sempre a melhor saída.

 

Eu briguei com minha mãe por causa dele, defendendo meu novo amigo, pois eu já tinha discernimento o suficiente para entender o quanto o tinha julgado errado e de quanta coisa nova aprendia com ele.

 

Miguel foi o responsável pelo meu primeiro confronto com o preconceito. Como eu sempre digo desde então, o preconceito é basicamente fruto da ignorância, de não saber. E como temos medo do desconhecido, formamos pré-conceitos a cerca de certos assuntos ou pessoas.

 

Mas não foi apenas isso. Com a nossa convivência aprendi muitas lições, a maioria prefiro não divulgar por não vir ao caso, apenas manter aqui dentro do meu coração, mas além de aprender a não julgar sem conhecer, de entender o amor como sendo um sentimento e não uma forma de fazer sexo, aprendi a me dar valor como pessoa, a não correr desesperadamente atrás do amor e ter calma e olhar atento para percebê-lo chegar. Essa última lição eu demorei mais a aprender, mas era nele e nas suas palavras que eu pensava quando agia errado e foi nele que pensei quando finalmente agi certo, mesmo que já não estivéssemos mais próximos nessa época.

 

Há quase dois anos atrás nos reencontramos depois de muitos anos, no reencontro da turma do bairro que contei aqui. Desde então nos falamos pelo face de quando em quando. De todas as pessoas que foram importantes na minha vida, ele foi quem mais me ensinou, me fez crescer, nem sempre de forma suave, mas sempre com verdade, franqueza. Sou grata por tê-lo tido na minha vida num momento de formação o meu caráter e de ainda tê-lo por perto hoje.

 

Quanto ao menino, aquele que era o sonho de consumo da mulherada, eles estão juntos até hoje, quase trinta anos depois. Ele continua lindo, dono do sorriso mais cativante que já conheci e também continuamos amigos.

 

Por isso resolvi contar essa história hoje. Sei o quanto ele sofreu e ainda sofre com o preconceito, apesar de ser bem resolvido e se cercar de pessoas que o aceitam e amam. O beijo entre Félix e Niko, numa cena delicada, sensível, muito bonita e nada apelativa, deve ter sido emocionante pra ele, uma libertação. Ao menos pra mim foi, libertadora.

 

Ao meu amigo Miguel, que foi capaz de usar de tanta sensatez quando atacado e munido de paciência e muita franqueza conquistou minha amizade e amor, toda minha gratidão e carinho.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Rede de apoio

Uma das coisas que sempre senti falta foi de uma rede de apoio, associação, centro de referência ou qualquer coisa o tipo aqui em Cachoeira o Sul sobre Esclerose Múltipla. Se quisesse algo parecido, precisava buscar em Porto Alegre.

Sempre quis criar algo assim por aqui, mas durante anos me julgava única, até mesmo a medicação que eu usava era só pra mim que vinha, por isso eu acreditar ser única.

Mas agora sei que não sou mais. Sei que existem outros portadores de EM aqui bem pertinho de mim, mas ainda não sei quantos nem quem são.

Decidi que não vai ser mais assim, quero descobrir quem são e manter contato. Minha intenção inicial é apenas essa: contato. Trocar idéias, ajuda mútua. No futuro, quem sabe, formamos uma associação.

Esses núcleos são importantes de diversas maneiras. Precisamos em determinados momentos manter contato com alguém que sente o mesmo que a gente, porque as outras pessoas, mesmo as mais próximas e esforçadas em nos entender, não estão no nosso pelo e tem dificuldade em compreender certas coisas. Ter com quem desabafar, tirar dúvidas ou simplesmente nos fazer entender que não estamos sós, ajuda muito. Também precisamos de união para podermos reivindicar seja lá o que for que precisarmos, desde acessibilidade até um médico especialista à disposição. E nesses momentos de reivindicações, quanto mais gente,mais barulho faz.

Ainda não sei como vou fazer isso, mas o primeiro passo (e mais importante) é identificar meus pares e para isso conto com a ajuda de todos que lerem esse post, que divulguem entre seus amigos. Não quero expor ninguém, quero apenas entrar em contato com quem queira esse contato, mas é preciso que essas pessoas saibam que eu as procuro.

Se alguém que ler esse post for portador de EM, amigo ou familiar e morar em Cachoeira do Sul e região e tiver interesse pode entrar em contato pelo formulário de contato do próprio blog, esse que aparece aqui na barra lateral direita, igual ao da fotinho. Esse contato vem diretamente para o meu email e não é compartilhado com ninguém.

Vamos nos conhecer, nos unir e nos ajudar!
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