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terça-feira, 15 de março de 2011

A dor, o hospital e as mulheres

Nesta curta (graças à Deus) temporada que passei no hospital acompanhando o marido estive muito tempo sozinha, esperando ele sair da cirurgia e depois da sala de recuperação. Mesmo depois que ele foi para o quarto, passava a maior parte do tempo dormindo, acordando em intervalos regulares para alimentação e a medicação, também teve momentos em que não conseguia dormir por causa da dor, mas 70% do tempo, fiquei só. 

À noite, tratava de dormir um pouco, mal acomodada numa cadeira, recostando a cabeça na pontinha do colchão da cama do marido, acordando a cada gemido dele, ou sempre que as enfermeiras entravam no quarto para medicar um dos 5 pacientes do quarto.

Mas durante o dia, me pus a observar o movimento e as pessoas ao meu redor. O hospital de Cachoeira é relativamente pequeno, principalmente se levarmos em conta que é o único da cidade que tem uma população em torno de 70 mil habitantes. 

O prédio é centenário, muito bonito na parte externa, como qualquer prédio antigo, mas velho e arcaico por dentro. Algumas alas foram reformadas, outras construídas recentemente, como a pediátrica por onde também andei passando umas temporadas com as crianças, essa é bem mais confortável e com uma aparência mais agradável. 

A ala onde meu marido ficou internado é dessas bem antigas. Recebeu pintura nova, mas a estrutura é bem deficiente, as janelas antigas da parte frontal do prédio, pesadas e emperradas, além de não permitirem uma ventilação adequada, ainda oferecem um certo risco aos pacientes. O quarto é escuro, quente. Conta com dois ventiladores presos no alto da parede e um deles ainda não funcionava direito. O ambiente sombrio, soturno, dá às pessoas que ali estão uma sensação de opressão, deixando quem já está doente ainda mais doente, já que afeta o lado psicológico das pessoas.

Mas o aspecto que mais me chamou a atenção, é que o hospital é um ambiente majoritáriamente feminino. As equipes de enfermagem embora contem com alguns rapazes são compostas na sua grande maioria por moças, gente muito jovem já que o hospital é também uma escola de enfermagem. Os pacientes também são mulheres na sua imensa maioria, porque as mulheres são gestantes ou parturientes, e porque as mulheres procuram com mais frequência a ajuda médica enquanto os homens tem medo e fogem de hospitais e médicos. Os acompanhantes então, nem se fala, mulheres são quase 90% dos acompanhantes. 

São as mulheres, mães, que acompanham seus filhos doentes, é raro ver um pai nessa posição. São as mulheres que acompanham o marido, o pai, os irmãos, a mãe, a tia e até mesmo a vizinha sem parentes disponíveis. Ou porque as mulheres não trabalham, ou porque abrem mão do trabalho para cuidar de alguém doente, enquanto que os homens não abrem mão de nada pra cumprir essa tarefa inglória. À noite é mais comum vê-los acompanhando doentes, embora ainda assim as mulheres sejam maioria, mas durante o dia são minoria absoluta. 

Uma dessas mulheres, acompanhando o marido que também fez cirurgia de apêndice como meu marido, resumiu a situação de maneira muito simples, dizendo sem o menor constrangimento: "o homem é tudo cagão." Meu marido riu, quis se aborrecer, mas no fim, acabou concordando. Os homens toleram menos a dor, isso é um fato que se não for comprovado cientificamente, pode ser facilmente comprovado passando-se algumas horas dentro de um hospital.

As mulheres acostumam-se a sentir dor. Já logo que nascem tem suas orelhas furadas para colocar brincos, objeto de vaidade e que serve para identificar que aquele bebê careca é mesmo uma menina. Depois de crescerem os cabelos, é aquela luta diária para desembaraçar as madeixas, escovar, puxar, prender, enfeitar. Mais adiante vem a menstruação e as cólicas, dor de cabeça e outras que acompanham o evento mensal.  Depilação de axilas, pernas, virilhas, sobrancelhas são coisa normal, nem reclamam do desconforto disso. Aí resolvem ter filhos, vem o desconforto da gestação, enjoo, seios doloridos, dor nas costas, contrações, dores do parto, pós-parto, amamentação... enfim, um rosário de dores a ser desfiado ao longo da nossa vida!

Já os homens, se acostumam a serem os fortes, aprendem que homem não chora, isso tem mudado, mas ainda é assim para os mais "maduros", comportam-se como se nunca fossem ficar doentes e quando ficam, parece que sentem-se envergonhados pela sua "fragilidade" como se ficar doente fosse "coisa de mulher".

Vi coisas que seriam hilárias em outro contexto, como homens fisicamente fortes, com cara de mau, fazendo beicinho e choramingando por causa dos pelinhos do braço sendo arrancados no momento da troca de um curativo, ou fazendo muitas caretas e gemendo por causa da agulha de uma injeção. 

Outra coisa é a resistência deles em serem ajudados. Pacientes cirúrgicos, dependendo da situação, precisam de ajuda até para ir ao banheiro e tomar banho e é aí que o bicho pega. No caso do meu marido por exemplo, eu precisava ir com ele para carregar junto o suporte com o soro e o antibiótico, apoiá-lo enquanto caminhava ainda com muita dor e debilitado depois de muitos dias sem se alimentar direito, com febre e dor, mas uma vez dentro do banheiro, ainda conseguia se virar sozinho. Mas alguns não tem condição pra isso, usam fraldas, precisam de banho deitados na cama e essa dependência é quase a morte pra alma masculina. Se esse serviço tiver que ser feito por uma mulher então, a vergonha é ainda maior.


Enquanto isso os homens passam a vida aprendendo a serem fortes, são o arrimo da família, aquele que conduz, que provém o sustento, que trabalha incessantemente para trazer o pão de cada dia. Não têm tempo para ficar doentes, por isso não querem saber de médicos, ficam com medo de terem que mudar suas rotinas, parar de trabalhar ou ficar dependentes ou de sentir muito mais dor por conta de uma dorzinha à toa que estão sentindo, e se calam, procurando ajuda só quando não suportam mais, por isso que embora eles sejam em menor número como pacientes nos hospitais, são sempre os doentes mais graves. 

É claro que isso não é padrão, muitas pessoas, tanto homens quanto mulheres, se comportam de maneira diferente, os tempos estão mudando. Mas no interior, em cidades pequenas como a nossa, as coisas mudam num ritmo muito mais lento e tudo isso que falei foi fruto da observação que fiz durante um fim de semana.

Todo esse papo me fez concluir que a dor, o hospital e as mulheres são íntimos conhecidos e como tal, embora não se gostem muito, tratam-se com cordialidade.


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Comentários
12 Comentários

12 comentários:

  1. rs, desculpa, mas tive que começar meu comentário com risos.
    Concordo com a moça que estava acompanhando o marido: "Homem é tudo cagão!"
    Realmente eles não servem para dor, hospital, médicos..etc
    e muitas vezes também não levam os nossos momentos de dor, médicos e hospital a sério também. Acham que estamos dramatizando as situações, que estamos com manha.

    Poxa Tuka que complicado o hospital daí hein... Uma pena que seja assim, concordo com vc que isso dificulta mesmo mesmo o reestabelecimento do paciente.

    Melhoras para o marido.

    beijos

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  2. Verdade né Tuka. Além deles não aguentarem um resfriado, eles têm certeza que a dor dela é maior do que a nossa, né? Meu pai mesmo, quando está resfriado, anda rastejando pela casa como se estivesse nas últimas, rsrs

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  3. sei de carteira assinada do que vc fala.
    acompanhei maridão por 48 dias no hospital. tempo em que ele quase morreu, depois quase perdeu o antebraço direito, e ficou entubado com fios saindo por tds os lados. passou por duas cirurgias, ficou deitado por quase duas semanas. e td dia duas enfermeiras o banhavam no leito e o rosto dele demonstrava claramente a vontade de desaparacer.
    qdo ele pode levantar, eu o arrastava para o banheiro (eu com 1.65cm e ele com 1.93cm), dava banho, limpava suas partes íntimas com amor de mãe, mas sei que ele morria de vergonha.
    e eu estava com a perna quebrada, teoricamente sem poder pisar por dois meses.
    qdo os médicos entravam no quarto perguntavam quem era o paciente. e eu dizia que era a acompanhante e ouvia: "como?"
    ele sentia dores horrendas com os ossos do braço esfacelados, mas a recuperação da artéria era vital e os ossos se consolidaram sem gesso, sem cirurgia com pinos ou placas...
    ele não dormia. só de 7h às 9h. na hora da ronda dos enfermeiros e estagiários. virei uma onça feroz e montava guarda na porta do quarto, não permitindo à entrada de alguém. sequer do médico responsável.
    não podia chorar. maridão é vaidoso. aí eu comia e comia. engordei 30 kgs nesses 48 dias...
    qdo tivemos alta, minha fratura não havia se consolidado e pra ajudar, no dia em que tirei o gesso, caí da laje do 2º andar e quebrei o calcâneo do msm pé. fiquei 5 meses engessada.
    ele se recuperou e eu continuei convalescendo.
    se valeu a pena? faria td novamente sem parar pra pensar.
    mas a retribuição não foi igual.
    passei por 5 cirurgias depois disso e em tds elas não tive acompanhantes. nem o maridão.
    agora estou me recuperando da última cirurgia no tornozelo e as vezes ouço resmungos e má vontade...
    e choro, me sentindo um peso enorme na vida do maridão e da filha.
    daí concluo que "homem é cagão" e egoísta e mulher é guerreira e otária.
    sou assim. e sei que se precisarem novamente da minha ajuda estarei lá firme como uma rocha.
    melhoras pro marido e muita saúde pra vc.
    bejins

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  4. Meu marido é exemplo de um moderno: vai ao médico regularmente e quando precisa de ajuda pede logo. mas sei que é minoria.
    quanto ao fato de serem sempre nós as acompanhantes, acho que além de cultural isso tb vem do fato de tomarmos à frente: numa sutuação assim nós nem deixamos que eles se voluntariem. E tb,nos hospitais daqui por exemplo, acompanhante homem só pode em quarto particular. Se for enfermaria TEM que ser mulher. Aí né... eles devem adorar.

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  5. Puxa Maiby li seu comentário agora e fiquei com dó. não se sinta um peso não, não deixe ninguém fazer isso com vc. Numa família todos tem a mesma importância. Vc já chegou no seu marido e deu uma liçãozinha de moral pelo que ele não faz não? tá merecendo viu.

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  6. Esses hospitais antigos são comuns no interior e, infelizmente, as prefeituras não se preocupam muito em modernizá-los, a não ser que o dinheiro venda do governo (superior).
    Certa vez li que a vocação para a Medicina é mais comum no sexo feminino, a despeito do menor número de mulheres nesta área. Além da resistência à dor, a mulher é capaz de maior empatia com quem sofre, sendo solidária e encarregando-se das necessidades.
    Existem vários estudos mostrando que o limiar da dor é menor no sexo masculino; talvez por isso aconteçam as situações hilárias que você descreve...
    Fico feliz e honrada em saber que se identifica comigo e com as minhas idéias; acredito que nada é coincidência, e hoje o destino usa mão dos recursos virtuais para aproximar as pessoas, quem sabe não foi ele quem nos "apresentou"? Também gosto muito de passar aqui, sempre há um assunto interessante e bem escrito como esse!
    Beijo
    Adri

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  7. Falou e disse, amiga !
    Homem tem mais força física do que nós, mas não podem ter uma dorzinha no dedão do pé que parece o fim do mundo...kkkkk.... Nesse aspecto, nós é quem somos a fortaleza em pessoa: suportamos a dor, damos amparo, colo, vamos ao nosso limite e até além dele para não deixar o barco afundar... infelizmente, nem sempre, somos retribuídas a altura... mas felizmente, nem todos os homens são iguais...kkkkkk ! beijinhos e melhoras para o marido e forças e saúde pra ti !

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  8. Oi Tuka,

    Primeira vez aqui no teu blog.
    Achei muito legal tudo o que tu escreveu...comparando a dor das mulheres com os homens lembrei daquele filme: "Do que as mulheres gostam" (acho bem nada a ver esse título, mas..)com o Mel Gibson, em que ele testa vários produtos femininos em seu banheiro, para uma campanha publicitária. Aí quando vai depilar a perna com cera quente, quase morre de dor...e diz:Como as mulheres podem se submeter a isso uma segunda vez?

    E é isso mesmo! As mulheres podem, as mulheres conseguem...
    E acho tbém que se muito menino/homem é cagão, infelizmente é por causa de nós mulheres. É o preconceito que todas nós temos.

    Ontem mesmo eu fiz uma faxina na minha casa. Tirei os dois sofás pro quintal, pra tomar um pouco de sol, fiz isso sozinha. Quando fui colocar pra dentro, meu marido já tava em casa, e deu muito mais trabalho para fazer isso com ele. Fiquei pensando se fosse pra ele fazer sozinho! ia ser um cáus...

    Esse papo rende muito..
    No final das contas e mesmo tendo que enfrentar tudo que enfrento, é muito melhor ser mulher.

    Beijos
    Priscila

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  9. esqueci de dizer que os homens tem amior sensibilidade à dor por terem mais neurônios do que as mulheres. a diferença é que esses neurônios morrem muito mais rápido...
    e Layana, eu costumo dizer que o mundo é redondo. a vez deles (maridão e filhota) vai chegar, sem eu precisar mover um cílio.
    bejins

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  10. Olha só Tuka, nunca pensei nesses três pontos (mulheres, a dor e o hospital) sob este ângulo e é verdade!!
    Individualmente são 3 elementos muito diferentes, mas olhando desta maneira tudo se completa.
    Sofro de cólicas menstruais desde os meus 13 anos de idade, no entanto meu marido (por exemplo) nem sonha o que é isso! rs
    Mesmo assim ele é carinhoso e compreensivo, mas não sabe o que significa esse tipo de dor. rsrs
    Somos mulheres guerreiras Tuka.
    Em todos os sentidos!!!

    Melhoras para seu marido!!!!!
    Bjs

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  11. Oi Tuka,

    Primeira vez aqui no teu blog.
    Achei muito legal tudo o que tu escreveu...comparando a dor das mulheres com os homens lembrei daquele filme: "Do que as mulheres gostam" (acho bem nada a ver esse título, mas..)com o Mel Gibson, em que ele testa vários produtos femininos em seu banheiro, para uma campanha publicitária. Aí quando vai depilar a perna com cera quente, quase morre de dor...e diz:Como as mulheres podem se submeter a isso uma segunda vez?

    E é isso mesmo! As mulheres podem, as mulheres conseguem...
    E acho tbém que se muito menino/homem é cagão, infelizmente é por causa de nós mulheres. É o preconceito que todas nós temos.

    Ontem mesmo eu fiz uma faxina na minha casa. Tirei os dois sofás pro quintal, pra tomar um pouco de sol, fiz isso sozinha. Quando fui colocar pra dentro, meu marido já tava em casa, e deu muito mais trabalho para fazer isso com ele. Fiquei pensando se fosse pra ele fazer sozinho! ia ser um cáus...

    Esse papo rende muito..
    No final das contas e mesmo tendo que enfrentar tudo que enfrento, é muito melhor ser mulher.

    Beijos
    Priscila

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  12. Verdade né Tuka. Além deles não aguentarem um resfriado, eles têm certeza que a dor dela é maior do que a nossa, né? Meu pai mesmo, quando está resfriado, anda rastejando pela casa como se estivesse nas últimas, rsrs

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