Nesta curta (graças à Deus) temporada que passei no hospital acompanhando o marido estive muito tempo sozinha, esperando ele sair da cirurgia e depois da sala de recuperação. Mesmo depois que ele foi para o quarto, passava a maior parte do tempo dormindo, acordando em intervalos regulares para alimentação e a medicação, também teve momentos em que não conseguia dormir por causa da dor, mas 70% do tempo, fiquei só.
À noite, tratava de dormir um pouco, mal acomodada numa cadeira, recostando a cabeça na pontinha do colchão da cama do marido, acordando a cada gemido dele, ou sempre que as enfermeiras entravam no quarto para medicar um dos 5 pacientes do quarto.
Mas durante o dia, me pus a observar o movimento e as pessoas ao meu redor. O hospital de Cachoeira é relativamente pequeno, principalmente se levarmos em conta que é o único da cidade que tem uma população em torno de 70 mil habitantes. O prédio é centenário, muito bonito na parte externa, como qualquer prédio antigo, mas velho e arcaico por dentro. Algumas alas foram reformadas, outras construídas recentemente, como a pediátrica por onde também andei passando umas temporadas com as crianças, essa é bem mais confortável e com uma aparência mais agradável.
A ala onde meu marido ficou internado é dessas bem antigas. Recebeu pintura nova, mas a estrutura é bem deficiente, as janelas antigas da parte frontal do prédio, pesadas e emperradas, além de não permitirem uma ventilação adequada, ainda oferecem um certo risco aos pacientes. O quarto é escuro, quente. Conta com dois ventiladores presos no alto da parede e um deles ainda não funcionava direito. O ambiente sombrio, soturno, dá às pessoas que ali estão uma sensação de opressão, deixando quem já está doente ainda mais doente, já que afeta o lado psicológico das pessoas.
Mas o aspecto que mais me chamou a atenção, é que o hospital é um ambiente majoritáriamente feminino. As equipes de enfermagem embora contem com alguns rapazes são compostas na sua grande maioria por moças, gente muito jovem já que o hospital é também uma escola de enfermagem. Os pacientes também são mulheres na sua imensa maioria, porque as mulheres são gestantes ou parturientes, e porque as mulheres procuram com mais frequência a ajuda médica enquanto os homens tem medo e fogem de hospitais e médicos. Os acompanhantes então, nem se fala, mulheres são quase 90% dos acompanhantes. São as mulheres, mães, que acompanham seus filhos doentes, é raro ver um pai nessa posição. São as mulheres que acompanham o marido, o pai, os irmãos, a mãe, a tia e até mesmo a vizinha sem parentes disponíveis. Ou porque as mulheres não trabalham, ou porque abrem mão do trabalho para cuidar de alguém doente, enquanto que os homens não abrem mão de nada pra cumprir essa tarefa inglória. À noite é mais comum vê-los acompanhando doentes, embora ainda assim as mulheres sejam maioria, mas durante o dia são minoria absoluta.
Uma dessas mulheres, acompanhando o marido que também fez cirurgia de apêndice como meu marido, resumiu a situação de maneira muito simples, dizendo sem o menor constrangimento: "o homem é tudo cagão." Meu marido riu, quis se aborrecer, mas no fim, acabou concordando. Os homens toleram menos a dor, isso é um fato que se não for comprovado cientificamente, pode ser facilmente comprovado passando-se algumas horas dentro de um hospital.As mulheres acostumam-se a sentir dor. Já logo que nascem tem suas orelhas furadas para colocar brincos, objeto de vaidade e que serve para identificar que aquele bebê careca é mesmo uma menina. Depois de crescerem os cabelos, é aquela luta diária para desembaraçar as madeixas, escovar, puxar, prender, enfeitar. Mais adiante vem a menstruação e as cólicas, dor de cabeça e outras que acompanham o evento mensal. Depilação de axilas, pernas, virilhas, sobrancelhas são coisa normal, nem reclamam do desconforto disso. Aí resolvem ter filhos, vem o desconforto da gestação, enjoo, seios doloridos, dor nas costas, contrações, dores do parto, pós-parto, amamentação... enfim, um rosário de dores a ser desfiado ao longo da nossa vida!
Já os homens, se acostumam a serem os fortes, aprendem que homem não chora, isso tem mudado, mas ainda é assim para os mais "maduros", comportam-se como se nunca fossem ficar doentes e quando ficam, parece que sentem-se envergonhados pela sua "fragilidade" como se ficar doente fosse "coisa de mulher".
Vi coisas que seriam hilárias em outro contexto, como homens fisicamente fortes, com cara de mau, fazendo beicinho e choramingando por causa dos pelinhos do braço sendo arrancados no momento da troca de um curativo, ou fazendo muitas caretas e gemendo por causa da agulha de uma injeção.
Outra coisa é a resistência deles em serem ajudados. Pacientes cirúrgicos, dependendo da situação, precisam de ajuda até para ir ao banheiro e tomar banho e é aí que o bicho pega. No caso do meu marido por exemplo, eu precisava ir com ele para carregar junto o suporte com o soro e o antibiótico, apoiá-lo enquanto caminhava ainda com muita dor e debilitado depois de muitos dias sem se alimentar direito, com febre e dor, mas uma vez dentro do banheiro, ainda conseguia se virar sozinho. Mas alguns não tem condição pra isso, usam fraldas, precisam de banho deitados na cama e essa dependência é quase a morte pra alma masculina. Se esse serviço tiver que ser feito por uma mulher então, a vergonha é ainda maior.
Enquanto isso os homens passam a vida aprendendo a serem fortes, são o arrimo da família, aquele que conduz, que provém o sustento, que trabalha incessantemente para trazer o pão de cada dia. Não têm tempo para ficar doentes, por isso não querem saber de médicos, ficam com medo de terem que mudar suas rotinas, parar de trabalhar ou ficar dependentes ou de sentir muito mais dor por conta de uma dorzinha à toa que estão sentindo, e se calam, procurando ajuda só quando não suportam mais, por isso que embora eles sejam em menor número como pacientes nos hospitais, são sempre os doentes mais graves. É claro que isso não é padrão, muitas pessoas, tanto homens quanto mulheres, se comportam de maneira diferente, os tempos estão mudando. Mas no interior, em cidades pequenas como a nossa, as coisas mudam num ritmo muito mais lento e tudo isso que falei foi fruto da observação que fiz durante um fim de semana.
Todo esse papo me fez concluir que a dor, o hospital e as mulheres são íntimos conhecidos e como tal, embora não se gostem muito, tratam-se com cordialidade.
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