Ache aqui o que você procura!

terça-feira, 15 de março de 2011

A dor, o hospital e as mulheres

Nesta curta (graças à Deus) temporada que passei no hospital acompanhando o marido estive muito tempo sozinha, esperando ele sair da cirurgia e depois da sala de recuperação. Mesmo depois que ele foi para o quarto, passava a maior parte do tempo dormindo, acordando em intervalos regulares para alimentação e a medicação, também teve momentos em que não conseguia dormir por causa da dor, mas 70% do tempo, fiquei só. 

À noite, tratava de dormir um pouco, mal acomodada numa cadeira, recostando a cabeça na pontinha do colchão da cama do marido, acordando a cada gemido dele, ou sempre que as enfermeiras entravam no quarto para medicar um dos 5 pacientes do quarto.

Mas durante o dia, me pus a observar o movimento e as pessoas ao meu redor. O hospital de Cachoeira é relativamente pequeno, principalmente se levarmos em conta que é o único da cidade que tem uma população em torno de 70 mil habitantes. 

O prédio é centenário, muito bonito na parte externa, como qualquer prédio antigo, mas velho e arcaico por dentro. Algumas alas foram reformadas, outras construídas recentemente, como a pediátrica por onde também andei passando umas temporadas com as crianças, essa é bem mais confortável e com uma aparência mais agradável. 

A ala onde meu marido ficou internado é dessas bem antigas. Recebeu pintura nova, mas a estrutura é bem deficiente, as janelas antigas da parte frontal do prédio, pesadas e emperradas, além de não permitirem uma ventilação adequada, ainda oferecem um certo risco aos pacientes. O quarto é escuro, quente. Conta com dois ventiladores presos no alto da parede e um deles ainda não funcionava direito. O ambiente sombrio, soturno, dá às pessoas que ali estão uma sensação de opressão, deixando quem já está doente ainda mais doente, já que afeta o lado psicológico das pessoas.

Mas o aspecto que mais me chamou a atenção, é que o hospital é um ambiente majoritáriamente feminino. As equipes de enfermagem embora contem com alguns rapazes são compostas na sua grande maioria por moças, gente muito jovem já que o hospital é também uma escola de enfermagem. Os pacientes também são mulheres na sua imensa maioria, porque as mulheres são gestantes ou parturientes, e porque as mulheres procuram com mais frequência a ajuda médica enquanto os homens tem medo e fogem de hospitais e médicos. Os acompanhantes então, nem se fala, mulheres são quase 90% dos acompanhantes. 

São as mulheres, mães, que acompanham seus filhos doentes, é raro ver um pai nessa posição. São as mulheres que acompanham o marido, o pai, os irmãos, a mãe, a tia e até mesmo a vizinha sem parentes disponíveis. Ou porque as mulheres não trabalham, ou porque abrem mão do trabalho para cuidar de alguém doente, enquanto que os homens não abrem mão de nada pra cumprir essa tarefa inglória. À noite é mais comum vê-los acompanhando doentes, embora ainda assim as mulheres sejam maioria, mas durante o dia são minoria absoluta. 

Uma dessas mulheres, acompanhando o marido que também fez cirurgia de apêndice como meu marido, resumiu a situação de maneira muito simples, dizendo sem o menor constrangimento: "o homem é tudo cagão." Meu marido riu, quis se aborrecer, mas no fim, acabou concordando. Os homens toleram menos a dor, isso é um fato que se não for comprovado cientificamente, pode ser facilmente comprovado passando-se algumas horas dentro de um hospital.

As mulheres acostumam-se a sentir dor. Já logo que nascem tem suas orelhas furadas para colocar brincos, objeto de vaidade e que serve para identificar que aquele bebê careca é mesmo uma menina. Depois de crescerem os cabelos, é aquela luta diária para desembaraçar as madeixas, escovar, puxar, prender, enfeitar. Mais adiante vem a menstruação e as cólicas, dor de cabeça e outras que acompanham o evento mensal.  Depilação de axilas, pernas, virilhas, sobrancelhas são coisa normal, nem reclamam do desconforto disso. Aí resolvem ter filhos, vem o desconforto da gestação, enjoo, seios doloridos, dor nas costas, contrações, dores do parto, pós-parto, amamentação... enfim, um rosário de dores a ser desfiado ao longo da nossa vida!

Já os homens, se acostumam a serem os fortes, aprendem que homem não chora, isso tem mudado, mas ainda é assim para os mais "maduros", comportam-se como se nunca fossem ficar doentes e quando ficam, parece que sentem-se envergonhados pela sua "fragilidade" como se ficar doente fosse "coisa de mulher".

Vi coisas que seriam hilárias em outro contexto, como homens fisicamente fortes, com cara de mau, fazendo beicinho e choramingando por causa dos pelinhos do braço sendo arrancados no momento da troca de um curativo, ou fazendo muitas caretas e gemendo por causa da agulha de uma injeção. 

Outra coisa é a resistência deles em serem ajudados. Pacientes cirúrgicos, dependendo da situação, precisam de ajuda até para ir ao banheiro e tomar banho e é aí que o bicho pega. No caso do meu marido por exemplo, eu precisava ir com ele para carregar junto o suporte com o soro e o antibiótico, apoiá-lo enquanto caminhava ainda com muita dor e debilitado depois de muitos dias sem se alimentar direito, com febre e dor, mas uma vez dentro do banheiro, ainda conseguia se virar sozinho. Mas alguns não tem condição pra isso, usam fraldas, precisam de banho deitados na cama e essa dependência é quase a morte pra alma masculina. Se esse serviço tiver que ser feito por uma mulher então, a vergonha é ainda maior.


Enquanto isso os homens passam a vida aprendendo a serem fortes, são o arrimo da família, aquele que conduz, que provém o sustento, que trabalha incessantemente para trazer o pão de cada dia. Não têm tempo para ficar doentes, por isso não querem saber de médicos, ficam com medo de terem que mudar suas rotinas, parar de trabalhar ou ficar dependentes ou de sentir muito mais dor por conta de uma dorzinha à toa que estão sentindo, e se calam, procurando ajuda só quando não suportam mais, por isso que embora eles sejam em menor número como pacientes nos hospitais, são sempre os doentes mais graves. 

É claro que isso não é padrão, muitas pessoas, tanto homens quanto mulheres, se comportam de maneira diferente, os tempos estão mudando. Mas no interior, em cidades pequenas como a nossa, as coisas mudam num ritmo muito mais lento e tudo isso que falei foi fruto da observação que fiz durante um fim de semana.

Todo esse papo me fez concluir que a dor, o hospital e as mulheres são íntimos conhecidos e como tal, embora não se gostem muito, tratam-se com cordialidade.


.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Apendicite


Tá aí um negocinho que não serve pra nada, exceto arrumar incomodação: o tal do apêndice. Depois de quase duas semanas sofrendo com dor, febre e mal estar, finalmente descobrimos ser esse o problema do marido. 

Fizemos uma ecografia no sábado de manhã e o médico nos mandou direto para o hospital. Mais alguns exames e muuuuuuuita espera, ele finalmente fez a cirurgia no final da tarde. O médico disse que foi uma cirurgia bem difícil, pois o apêndice dele estava pra dentro, por baixo do intestino, o que impediu ele de sentir muita dor, mas também dificultou bastante o processo de retirada. 

O tempo que demorou também contribui para que ele já estivesse bastante inflamado e acho que a situação só não foi pior, porque o outro médico que examinou ele uma semana antes, desconfiado de que havia algo, receitou antbióticos e mandou que ele fizesse a tal ecografia, mas com o feriado de carnaval, a falta de grana e mais o tempo de preparo (jejum e medicação) só conseguimos fazer no sábado mesmo.

Fiquei todo o tempo com ele no hospital, a recuperação também foi mais lenta por causa dessa dificuldade da cirurgia, ele foi bem remexido, está ainda com muita dor. Mas saimos do hospital agora há pouco. O Carlos vai ficar lá na casa da mamãe, pra evitar que as crianças se joguem em cima dele enquanto ainda estiver com os pontos e muito debilitado e eu vou ficar em casa com elas. 

Pelo menos não estamos mais no hospital, dormir (ou tentar) sentada numa cadeira sem cômodo nenhum, com luz acesa num quarto cheio de gente e com enfermeiras fuxicando à cada duas horas é o Ó. 

O que interessa é que ele está bem e vai melhorar mais ainda. Depois com mais calma, conto umas historinhas que merecem um post à parte.

De mais, agradeço à todos os amigos e amigas que mandaram alguma palavrinha de conforto e de força para nós. Foram muitas palavras amigas, por telefone, sms, email, twitter ou FB e é muito reconfortante sabermos que tem alguém pensando em nós e nos mandando boas vibrações em momentos como esses.

Não sei se vocês notaram, mas falei o tempo todo no plural, como se eu também tivesse sentido dor, passado por exames ou cirurgia, mas não deixa de ser. O Carlos é minha força, meu porto seguro, é onde me apoio. Se ele sofre, fico sem chão. Sofri com ele todos esses dias e fiquei muito angustiada com essa situação. 

Mas só agora, que o pior já passou e que ele está em franca recuperação, me permiti desabar por completo. Meu corpo todo dói, meus pés estão inchados, eu estou caindo de sono, de fome, de cansaço. Mas não tava sentindo nada disso antes, como se tivesse anestesiada. Ainda bem que já passou, agora posso chorar, desabafar meu cansaço, e voltar a viver.

Ótima semana à todos!







.

sexta-feira, 11 de março de 2011

O que eu aprendi nestes 3 anos

Como num espelho, Aline abre os olhos para ver a Camila....


Esta semana as gêmeas completam seus 3 anos. Na breve restrospectiva que fiz aqui mesmo no blog, lembrei dos nossos primeiros momentos juntas, das primeiras emoções, das primeiras impressões. Ficou faltando muita coisa ainda, mas vou guardar algumas lembranças para contar em outras ocasiões. Mas o que eu não posso deixar de falar, é sobre o que eu aprendi com elas nesses 3 anos.

Quando contei que estava esperando gêmeas, minha colega de trabalho, amiga e comadre Carla me olhou pensativa e perguntou o que será que Deus estava querendo nos dizer com isso. Na época achei estranha a pergunta, que ela fez sem esperar resposta, mas aos poucos fui descobrindo o que Deus estava querendo dizer.

A principal coisa que Deus me disse foi: "por mais que você tenha dor, cansaço ou sinta-se triste e deprimida, não terás o direito de entregar-te, pois duas crianças, dois anjos da minha casa, dependem da tua atenção" e assim tem sido. Tem dias que fico muito irritada, sem paciência por conta do cansaço que sinto e que não posso aliviar, mas mesmo cansada, tenho que cuidar delas. Quando estou me sentindo muito mal peço ajuda, mas nem sempre a ajuda está disponível. É nesses momentos que eu tenho que superar os meus limites e atendê-las. Elas me dão força, me manteem viva.

Observar suas semelhanças e diferenças tem sido outro aprendizado valioso. Todos os irmãos tem semelhanças e diferenças, mas no caso de filhos gêmeos tem-se a falsa impressão de que tudo são semelhanças. Pois eu digo que as diferenças de personalidade entre elas é tanta que tem dias que nem acho elas parecidas fisicamente.

E essa observação é um exercício fascinante.  Uma é doce e forte e a outra é meiga e apenas aparenta fragilidade; Uma é mais feminina, gosta das coisas de menina, mas tem um temperamento mais mandão, autoritária. A outra parece que nasceu com o DNA trocado e deveria ser um gurizinho, sobe e tudo o que vê, chuta uma bola que dá gosto, adora pisar em poças e saltar obstáculos, mas é mais delicada e brinca de mamãe com as bonecas. 

...enquanto Camila dá uma espiadinha na Aline.

Elas são diferentes até no modo de teimar, enquanto uma empaca e não anda mais nem pra frente nem pra trás, a outra chora, grita, se escabela. Elas são contraditórias e às vezes trocam de personalidade, comportando-se da maneira que a outra se comportaria só para nos confundir.

Adoro ouvir a Aline contando as suas histórias, ela fala igual uma metralhadora, disparando 1800 palavras por segundo, eu que me vire pra entender. Mas ela tem um vocabulário extenso e é mais clara para falar, sem contar que repete todas as expressões que costumo usar e me faz rir muito. É meiga e intuitiva. 

Adoro ver a Camila sorrir. Fisicamente o sorriso é igual, mas o jeitinho que a Camila sorri é pura luz. Ela fala um pouco menos e é mais enrolada, mas tem atitude, é determinada e imita os gestos, quer fazer tudo o que eu faço e acha que sabe de tudo. É destemida, valente, corajosa.

Elas me ensinaram a observar. Me ensinaram que são iguais, amigas, companheiras, unidas, mas são únicas, individuais, cada uma com suas particularidades, habilidades, fragilidades. Me ensinaram que tenho que tentar ser forte mesmo quando meu corpo diz que não tem mais forças estão me ensinando aos poucos a ter mais paciência. 

Elas me ensinaram a cantar, me ensinaram coreografias estranhas, e brincar de bonecas. Me ensinaram a ver filmes e desenhos e a desenhar no papel, a empilhar caixinhas e a encaixar pequenos blocos pra fazer um avião ou um robô (só o que eu consigo fazer) e me ensinaram a chutar uma bola, ou a jogá-la com as mãos. 

Me ensinaram o quanto pode ser divertido uma cara suja de biscoito, um joelho sujo de terra, o cabelo cheio de areia. Divertido brincar na piscina mesmo quando esta vazia, divertido empilhar cadeiras, panelas ou qualquer outro objeto que "more" na cozinha. Me ensinaram a ser condenscendente, cúmplice.
E pelo que vejo, eu ainda tenho muito que aprender, e elas a me ensinar.






.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Maria Clara e Renato

EDITADO

Eu conheci pessoalmente esse casal lá no Hospital de Clínicas. Renato (já falei dele aqui) e eu, além da mesma doença, compartilhamos também o mesmo médico. Bastam 5 minutos perto deles para se encantar, se apaixonar. Eles sao almas puras, irradiam luz e é impossível não sentir-se bem, feliz e em paz ao lado deles. O amor deles salta aos olhos, é palpável. Lindo.
Hoje saiu uma reportagem sobre eles no Jornal do Almoço aqui no Rio Grande do sul. Confiram a história, é uma lição de vida.



Esse primeiro vídeo começa com outra notícia, aos 30 segundos começa a história deles. Olhem, vale a pena. Se você não der outro valor à sua vida depois disso, nada fará você dar.



O segundo vídeo mostra um pouco da dura rotina da Maria Clara para fazer as transferências do Renato.



Já esse terceiro, mostra um pouquinho só, do quanto eles se amam...




Os dados bancários para doações estão aí ó:
Banco Itaú / Agência 8253 / Conta 06128-0
Quem puder, ajuda. O equipamento custa R$6.000,00
Lembrem que Maria Clara também tem limitações por isso pede ajuda, e que de grão em grão a galinha enche o bico, por isso qualquer quantia é bem-vinda.



.

quarta-feira, 9 de março de 2011

marido dodói

Esta semana foi um bocado difícil, marido ficou dodói e embolou o meio de campo aqui em casa. Não conseguimos descobrir exatamente o que ele teve, o médico ficou dividido entre uma apendicite e uma crise renal, mas achou que a probabilidade da segunda era muito maior. Os exames deram bons por isso a dúvida permaneceu no ar. Ele foi medicado e parece que está finalmente melhorando, mas fiquei apreensiva pois nunca o vi doente. Ele tem lá uma gripe de vez em quando, uma dor de garganta ou estômago, mas nada que o faça parar de trabalhar ou ficar prostrado, sem forças, só deitado, com febre... Tanto que aceitou ir ao médico, um verdadeiro milagre. Mas o importante é que já está bem.
E ainda para completar o quadro as crianças recomeçaram na escolinha e estamos sem nosso "transporte" (já que o marido diz que aquilo não é carro) então ando as voltas com elas a pé, Letícia no carrinho e as duas ao lado, caminhando, estamos todos muito cansados. 
Hoje passei um stress daqueles com elas, pois sempre passo  no marcado antes de ir busc-a-las, mas hoje me atrasei e resolvi passar no mercado depois COM elas. Aff... melhor nem comentar!

Agradeço aos amigos que mesmo eu estando completamente ausente, lembraram de mim e me deram uma força, enviaram boas vibrações e energias positivas.
 Abraços!!!


.

terça-feira, 8 de março de 2011

Dia da mulher

Antes que o dia termine, preciso falar sobre a data de hoje.
Nada combina mais com a data do que rosas vermelhas. Feliz dia da Mulher!

Não importa como e porque esta data foi criada, o que importa é que assim como Natal, Páscoa e dia das mães, tornou-se mais uma data comercial, cujo significado se perdeu no tempo.
Toda mulher (assim como qualquer ser humano) gosta de ser valorizada, e lembrada por suas virtudes. Ganhar presentes, principalmente flores, também não é nada ruim. Mas se precisamos de uma data especial para lembrarmos que temos mãe, ou que a mulher tem o seu valor, é porque não lembramos mesmo da nossa mãe e nem damos valor algum à mulher.

Os homens temem essa mulher dos novos tempos, moderna, inteligente, decidida, forte, dinâmica, disciplinada e multifuncional. Temem que o mundo seja dominado por elas e que não lhes reste papel de destaque neste novo mundo. 

A mulher evoluiu e desenvolveu inúmeras habilidades. Descobriu ser capaz não só de gerir, administrar sua casa, sua família mas também grandes corporações a até países. Aprendeu que além de trocar fraldas pode trocar pneus e também ideias e opiniões com outras mulheres e também com homens, pois a ela foi dado o dom de ouvir, não com os ouvidos, mas com o coração, com a alma. Desenvolveu a habilidade de amamentar seus filhos ao mesmo tempo em que paga as contas via Internet, dá ordens à empregada e fala ao telefone com o marido para lembrá-lo de um compromisso. Aprendeu a lavar a roupa, a louça, o carro, a alma. É capaz de ser doce, meiga e gentil ao mesmo tempo em que dá ordens duras e faz exigências. Descobriu que além de pilotar o fogão e o tanque, pode pilotar carros, caminhões, máquinas complexas e foguete espacial também (porque não?). 

As mulheres, mesmo as simples donas-de-casa, mesmo aquelas que são mães, desempenham inúmeros papéis: cozinheira, lavadeira, advogada, enfermeira, arquiteta, engenheira, desenhista, professora, cientista. Fazem isso tudo sem perceber, enquanto administram as brigas dos filhos, tratam suas gripes, resfriados e machucados dos tombos de bicicleta, enquanto os ensinam a falar, a escrever, a contar até 10, enquanto transformam seus quartos sem espaço em locais onde possam não apenas dormir, mas também brincar e estudar, enquanto preparam as papinhas e lavam suas roupas delicadas, enquanto fazem experiências com pequenas formigas e grãos de feijão que eles teimam querer saber o que fazem e como se desenvolvem, enquanto se desdobram em responder todas as inúmeras perguntas que a curiosidade infantil é capaz de produzir e processar.
Enquanto a mulher evoluiu e aprendeu a deixar de ser submissa, passiva, serviçal e até subserviente, passando de mera coadjuvante a protagonista da própria história, deixou de ser a gata borralheira não pra se transformar na Cinderela mas na mulher maravilha, os homens continuaram os mesmos: são os mesmos homens das cavernas, guiados pelo pobre, mesquinho e falho instinto animal. Ainda se valem de argumentos ridículos de que a essência do homem é procriar e prover para justificar suas falhas (até mesmo as de caráter) como se fossem bichos incapazes de raciocinar e escolher.




Por ciúme e posse, eles matam, mutilam. Tá, mulher também faz isso. Mas estou falando metafóricamente, pois ninguém além de um homem consegue matar ou mutilar gravemente a alma e a autoestima de uma mulher e é aí que eles continuam a dominar o mundo.

Este texto não tem o intuito de generalizar. Nem todas as mulheres são capazes disso tudo, eu sou um exemplo de mulher que é falha e limitada. Nem todos os homens são canalhas e comportam-se igual o capitão-caverna. Sei que existem mulheres que não valem a sombra que fazem no chão, assim como existem homens que esforçam-se para desenvolver a habilidade sutil da sensibilidade. Mas as diferenças entre os sexos ainda existem e são gritantes. Em parte porque não há nada no mundo que possamos fazer para que deixemos de ser realmente diferentes e é preciso aceitar essas diferenças para a partir delas aproximarmos homens e mulheres realmente e podermos nos sentir igualmente valorizadas em todas as áreas e de todas as formas.

Se eu fico vulnerável e ferida quando a porção sapo (ou seria ogro?) do meu príncipe se manifesta, ele também se aborrece quando a minha porção Cinderela (ou Bela Adormecida) falam mais alto. Enquanto nós 
mulheres ainda acreditarmos em contos de fadas eles ainda se comportarão como o ogro do pântano. Porque os homens podem admirar as formas da Cinderela, mas querem ao seu lado mulheres como a Fiona, que luta no dia-a-dia de forma igual e que não se limita a olhar sua imagem no espelho, pois prefere se ver no espelho dos olhos de quem a admira por inteiro, não apenas por sua casca.

Por isso acredito que só recuperaremos o verdadeiro sentido de comemorar o dia internacional da mulher, quando fizermos nossa revolução interna e deixarmos de ser as eternas princesas esperando pelo príncipe no alto da torre. Mulher não espera, faz acontecer. E os príncipes? Eles estão aí, pelo caminho, por toda a parte. Quem não ficar esperando, vai encontrar o seu. Ou descobrir que pode muito bem viver sem eles.










.

domingo, 6 de março de 2011

O nascimento

Aviso aos navegantes: este é um relato frio sobre os acontecimentos que envolvem o meu parto das gêmeas. Embora eu me emocione ao lembrá-los, quis contar a parte prática da coisa. As fotos são de quando já tinham quase duas semanas, já que as do dia do nascimento eu já mostrei em outro post aqui.

=======

Estava fazendo um pré-natal normal com meu GO aqui em Cachoeira, mas meu neurologista estava informado sobre a gestação. A princípio não me deu nenhuma recomendação especial, exceto de esquecer o Avonex e iniciar com o Copaxone assim que ele chegasse para mim (essa recomendação foi diferente na gestação da Letícia mas em todas as duas me causou problemas para amamentar). Mas quando descobrimos que eram gêmeas a coisa mudou de figura. 

Eu já tinha sido encaminhada para a Enfª Suzana, uma querida que se tornou muito amiga e que me encaminhou para a equipe de gestação de risco e fazia também o pré-natal lá em Porto Alegre. Eu já acalentava planos de ir pra lá quando faltassem algumas semanas para que meus bebês nascessem lá, por ter mais recursos e porque (por indicação do meu neuro), a cesariana era uma probabilidade quase certa.

Sendo assim, já me preparava para ir pra lá e ficar hospedada na casa da minha dinda, porque alguns exames mostraram uma pequena alteração na minha glicose e aqui o GO não deu muita importância e nem sequer tratava minha gestação como sendo de risco, mas em se tratando de gestações gemelares, elas sempre são de risco, no meu caso aumentado pela minha idade e pela Esclerose Múltipla.

As viagens também estavam sendo um suplício, meu marido me acompanhava sempre, mas era muito cansativo, o verão ajudava a piorar o mal estar, eu estava mega inchada, parecendo um leão marinho e minha bexiga se resumia num pequeno dedal onde não cabia nada dentro, ia ao banheiro a cada 30 minutos, isso segurando muito.

Então, fui para uma consulta. Chegando lá a situação era a seguinte: pressão arterial alta, glicose alta, trabalho de parto prematuro e sangramento. Fui direto para o CO e já fiquei baixada. Marido voltou sozinho pra casa. Fiquei baixada por 4 dias e minha pressão se normalizou, minha glicose ficou sob controle e o sangramento e o trabalho de parto foram revertidos logo no primeiro dia com medicação e repouso. 

No amanhecer da segunda feira, acordei bem disposta e mandei um torpedo pro marido dando bom dia, dizendo que estava tudo bem e que ele fosse trabalhar tranquilo. Meia hora depois a enfermeira entra no quarto pra medir minha pressão e glicose, tudo normal e de repente, a bolsa estoura. Lá vai eu às pressa pro CO e mando outro torpedo pro marido: esquece o que eu disse antes, junta tudo e vem pra cá que vai nascer!

A doutora que me assistia ainda me mandou fazer uma ultra para ver se daria pra monitorar e manter os bebês lá dentro por mais algum tempo, mas o médico chefe da equipe ao ficar sabendo do ocorrido mandou ela suspender a ultra e me mandar direto pra cesárea. As palavras dele: A natureza sabe o que faz, se a bolsa estourou, é porque tá na hora de nascer.

E assim foi. A essa altura eu já estava em pleno trabalho de parto e ao me examinar o médico disse que eu já estava com 6-7cm de dilatação e quase já não dava mais pra fazer a anestesia. Correria. Mas anestesia feita, a dor passou, ficou só o pânico instalado definitivamente em mim. Mas aí foi tudo muito rápido. A preocupação era porque nestes dias de internação hospitalar eu havia feito vários ultrassons e via-se claramente os movimentos respiratórios da Camila, mas não se via os da Aline, que também tinha parado de se desenvolver do mesmo modo que a irmã e estava claramente menor, o que sugeria mais problemas se a gestação fosse mais adiante.

Aline, ainda alimentando-se por sonda
Camila já mais gordinha

Na mesa de cirurgia, com a diferença de apenas um minuto, conheci finalmente minhas filhas. Aline nasceu primeiro, pequenininha que só com 1.340kg, depois de colocarem ela perto do meu rosto pra ganhar um cheirinho, foi logo sendo enrolada enquanto a Camila nascia, um pouco maior com 1.695kg e com cara de poucos amigos. Também ganhou um cheirinho, colocaram as duas pertinho de mim, uma de cada lado (mas eu ainda estava imóvel, amarrada de um lado e do outro com fios e catéteres. Lá se foram elas para a UTI.

As horas em que fiquei na sala de recuperação foram as mais longas da história da humanidade. Eu queria ir logo vê-las, queria encontrar meu marido que ainda nem tinha saído de Cachoeira quando elas nasceram, queria notícias. Saí da recuperação e fui para o quarto e de lá, depois de um banho, fui ver minhas meninas. Estavam em salas separadas porque a Camila precisou de auxílio para respirar por mais de 24 horas, portanto em situação mais grave, depois disso não se separaram mais.

(pausa pra explicação)

Era a Aline de quem não se viam os movimentos respiratórios, mas ela nasceu respirando bem enquanto a irmã precisou de ajuda. Meu marido costuma dizer que ela sabia que a irmã estava com problemas, por isso causou os dela para que nascessem logo e a irmã pudesse ficar bem. Hoje, vendo o temperamento e o jeito dela com a irmã, também acredito que isso possa ter sido possível.
(despausa)

A emoção que senti no momento em que elas nasceram era um misto de muito medo e alegria. O medo de que ainda não fosse suficiente o tempo em que ficaram na minha barriga, de que não nascessem bem e a alegria de vê-las perfeitinhas, de ouvir o choro estridente da Aline e o choro mais forte porém contido da Camila. 

Ao vê-las nas incubadoras, dormindo suaves como anjos, mas todas cheias de fios para monitoramento, os pézinhos espetados por agulhas, Camila com aquele trambolho no rostinho para ajudá-la a respirar.. os sentimentos eram também contraditórios. Sabia que estavam bem, que era só uma questão de tempo, mas também as via tão vulneráveis e eu nem podia agarrá-las no colo e dar o meu carinho. Chorei muito nos primeiros dias. 

Marido também não pode ficar, conheceu as filhas, fez o registro e voltou pra casa, me deixando lá me sentindo a mais sozinha das criaturas. Fiquei hospedada na casa da minha dinda e tinha o apoio e o carinho dela e da Dani, minha prima, mas sentia falta de casa, dos filhos que tinha deixado aqui, do marido, do cachorro, ate da sogra. Ia todos os dias ao hospital. Foram 36 dias de UTI, mas aí já é outro post.





.

sexta-feira, 4 de março de 2011

O sexo do bebê? Gêmeos!

Quando a Yasmin era pequena, já tinha o desejo de ter um terceiro filho, mas esse desejo foi sendo sistematicamente adiado por conta da situação financeira e todo o resto. Quando ela já estava com uns 8 anos, depois de uma consulta ao GO onde ele me recomendou que parasse com a pílula pois estava me trazendo mais problemas que benefícios, eu e o marido conversamos muito a respeito, se faríamos algum procedimento definitivo ou se ainda teríamos mais filhos. Eu já tinha dois e mesmo desejando mais um, daria-me por satisfeita se ele não quisesse mais. Mas ele tinha só a Yasmin e achava que deveríamos "entregar pra Deus" e assim fizemos.

Apesar desta decisão, e de termos voltado a falar neste assunto outras vezes chegando sempre ao mesmo veredicto, tomei um susto quando percebi que estava grávida. Comprei um exame de farmácia para confirmar minhas suspeitas e não deu outra. Saí do banheiro com o resultado do exame na mão, tremendo igual a vara verde e fui dar a "boa nova" ao marido, que ficou branco e tremendo tanto que teve que voltar pra cama. Mas passado o susto, vibramos bastante.

Os amigos estavam mais curioso do que nós para saber o sexo do bebê, tanto que reuniram-se e nos deram de presente de Natal um exame de ultrassom. Dia 26 de dezembro, eu com quase 5 meses de gestação, entro na sala de exames acompanhada do marido. A médica me acomoda na mesa, passa o aparelho na minha barriga e pergunta: "Vocês já sabiam que eram dois bebês né?" Oi? Como assim, dois bebês? Na hora achei que fosse piada, pois os amigos diziam que tinha que ser 4 ou 5 bebês para que cada casal pudesse ser padrinho de um, achei que tinham falado isso pra doutora. Mas ela, percebendo que nós fomos pegos de surpresa, manteve-se em silêncio e calmamente nos mostrou: "aqui tem um e aqui tem outro."

Esta é a posição aproximada com a que elas estavam: Camila pra cima, mas atravessada por cima da Aline que estava virada pra baixo
Choque total. Eu não sabia se dava risada ou se chorava. Misto de pânico absoluto com uma alegria incontrolável. Marido ficou mudo e por uns três dias ficou meio fora do ar, eu falava com ele de sabonete e ele me respondia de avião, tipo assim. Difícil foi lidar com minha amiga Deise que me encontrava todos os dias e me perguntava: "como vai vocês três?" e eu dizia que se tivessem dois bebes ali dentro, eu dava um pra ela Até hoje a danada me cobra querendo saber qual das duas que é a dela...

E foi assim, aos 5 meses de gestação, apenas 2 meses antes delas nascerem, que eu descobri que esperava gêmeos. Neste mesmo exame ficamos sabendo que eram duas meninas e logo partimos para a escolha dos nomes. Eu já tinha Aline em mente desde a gravidez da Yasmin, queria que fosse Aline, mas minha prima Patrícia tinha posto este nome na filha dela que nasceu menos de um ano antes da Yasmin. Então o Aline já estava meio que decidido. Entre várias outras opções, apareceu o Letícia, que depois viria a ser da nossa caçulinha, mas o pai escolheu Camila para formar a dupla.

Depois dessa descoberta, comecei a entender melhor os movimentos que o bebê que eu julgava ser único fazia na minha barriga, uma hora aqui e em seguida lá do outro lado. Aos poucos, comecei a perceber que a Aline estava mais apertadinha, Camila era muito espaçosa, e que já disputavam o espaço delas. Já dentro da barriga, demonstravam ter personalidades diferentes e isso se confirmou depois do nascimento.

Eu tive muito medo de não dar conta, mas não é que até que me saí bem? Mas isso é assunto pra outro post...



.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Quase 3!

De repente me dei conta que Aline e Camila vão completar 3 anos este mês. TRÊS ANOS!!! Onde foi parar esse tempo?

Sempre que me queixo do inverno e das crises de bronquite, ou das dificuldades em tirar as fraldas ou controlar duas crianças muito ativas e traquinas ao mesmo tempo ouço me dizerem: "É uma fase, logo passa." Eu sei disso, sempre soube, mas não é que passa mesmo e quando a gente se dá conta já passou?

As coisas ainda estão complicadas por aqui, até porque ainda tem mais uma criança, ainda menor e que vai atingindo as etapas que as maninhas acabaram de completar, mas de repente eu olho pra elas e penso em como é que elas cresceram tanto assim tão de repente?

Quando algumas etapas são finalmente vencidas, como a das fraldas por exemplo, vencida recentemente (ainda não completamente) e que tanto trabalho nos deram, parece que a gente puxou bruscamente o freio. Levamos um tranco. É o que esta acontecendo comigo agora: levei um tranco! Parece que tudo passou tão depressa, que elas já estão tão grandes e independentes (como se fossem sair de casa amanhã e morar sozinhas) mas dá uma sensação esquisita, um misto entre satisfação e saudade.
Satisfação por perceber que elas cresceram e são espertas, lindas, inteligentes... E saudade porque sabemos que esse tempo em que elas são tão nossas, não volta mais.


(pausa)
Aqui é a hora em que mamãe para e chora um pouquinho, sentido saudade do calorzinho delas no canguru lá na UTI, da primeira vez em que mamaram no meu peito, de como elas já disputavam o espaço no meu colo mesmo sendo prematuras, minúsculas e terem apenas uma semana de vida, do primeiro olhar de cumplicidade com a mamãe e entre elas, do primeiro sorriso, de como as personalidades já se mostravam distintas mesmo nos primeiro minutos de vida com a Aline sendo mais manhosa, chorona, exigindo mais atenção e a Camila se fazendo de forte, com ares de mais velha, tomando iniciativas como arrancar a sonda do nariz 4 vezes seguidas quando achava que já podia mamar sozinha.
(despausa)

Saudade de todas as primeiras vezes, que já não veremos mais. Mesmo sabendo que haverão segundas, terceiras e milhares de vezes que veremos elas aprenderem coisas novas, repetirem belos gestos, sorrirem, chamarem mamãe, ficará sempre a saudade das primeiras vezes.

Então vou tentar contar aqui nos próximos dias algumas dessas primeiras vezes. Não terei fotos de tudo, pois não tenho câmera e nem tudo foi devidamente registrado, exceto na memória e no meu coração, de onde não se apagam.


Uma toda enrolada e a outra ainda peladinha antes de irem pra UTI

Aline - reparem no tamanho da minha mão na cabeça dela
Camila - com auxílio para respirar






Pra ilustrar melhor este post, vou deixar aqui as primeiras fotos. A primeira foi tirada pela minha tia Marlene, a única pessoa da família que estava no hospital no momento em que elas nasceram. Esta história é até engraçada porque ela tava lá por acaso e ficou sabendo que eu estava baixada, quando foi me procurar, descobriu que eu estava na sala de parto e foi pra lá. Eu, que me julgava sozinha naquele momento, dei de cara com a tia Marlene com o celular na mão dentro da sala de parto fotografando minhas meninas.
As outras duas eu tirei com o meu celular algumas horas mais tarde, quando saí da sala de recuperação. As fotos são ruins porque são de celular, as delas na incubadora ainda tem o reflexo da luz da sala sobre o acrílico da incubadora.

Aguardem. Outros momentos virão.



.

terça-feira, 1 de março de 2011

Parabéns à você

Estou sem internet do casa hoje, mas não podia deixar a data passar em branco, então estou postando do celular, de modo que não sei bem que bicho vai dar.

Hoje é aniversário da minha querida tia Marta, amada, idolatrada, salve! Salve!

Já falei muito dela aqui. Quando criança eu dizia que ela era minha tia preferida. Hoje eu não diria isso, pois tenho muito amor pelas outras, mas acho que temos uma afinidade especial, que nem o tempo e a distância mudam.

Quando nos encontramos agora no ano novo pude ver bem isso. Não temos mais a intimidade que um dia tivemos, pois não convivemos mais, mas essa afinidade, esse "se entender" que vai além do que se expressa verbalmente.

Dizer a ela que eu a amo é chover no molhado, mas não conheço outras palavras que expliquem o que eu sinto por ela.

Tia Marta, querida, feliz aniversário. Que Deus te dê tudo aquilo que você deseja e merece. E que o Souza cuide muito bem de você!

Mas hoje também é aniversário da minha amiga Carla Alves, a @pekenina_ uma querida que esse mundo louco da internet aproximou de mim. Ainda somos só virtuais, mas sinto ela muito próxima, muito íntima.

Carlinha, amiga querida, feliz aniversário pra você! Saúde, paz, amor e sucesso.


Não sei como vai ficar este post, simples, sem formatação, mas carregado de carinho.




.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...