
Também já dei entrada na papelada para o Gilenya, agora é só esperar.
Bem, por hoje é só pessoal! Bjim!

Vou começar pelas más, pra poder terminar em alto astral.
Semana passada tive uma consulta de rotina, mas ao relatar alguns sintomas, constatou-se um surtinho leve. Mas leve ou não, precisa de tratamento, então “ganhei” um passaporte para 3 dias de pulsoterapia com direito a viagens de ida e volta à Porto Alegre nos 3 dias. Já curti 2, essa madrugada embarco para o último dia dessa “maravilha”.
Mas as boas notícias são mais e melhores. Nessa consulta, meu médico já estava predisposto a mudar minha medicação. O surto só deu a ele a certeza de que o momento era esse.
Ele havia me dado o Avonex sob protestos. Eu tenho uma depressão resistente e o Avonex é um poderoso agravante. Além do mais, já não ta mais dando conta, já que tive 3 surtos num período inferior a dois anos.
Então, moooooooorram de inveja, ele me receitou o Gilenya (Fingolimode), medicação via oral. Vou me livrar das injeções!
Ainda não dá pra comemorar, já que o Gilenya não é fornecido pelo SUS pois não consta dos protocolos oficias do Ministério da saúde para Esclerose Múltipla. É necessário entrar com processo judicial, mas segundo dr. Alessandro, com a necessidade bem justificada os pacientes tem conseguido.
Outra novidade é que consegui fazer minha ressonância. Havia feito a última em agosto de 2006. Entrei com o pedido em novembro e ficaram de me ligar avisando da marcação e nunca mais lembraram de mim. Hoje fui lá reclamar e a guria me pergunta: “quer fazer hoje?” – que dúvida, claro que quero!
Bom, então resumindo, viajei na quarta feira, viajei na segunda, na terça e vou de novo na quarta. Segunda que vem, tenho que ir de novo, dessa vez com as gêmeas. Tô cansada grau 11, grogue por causa da pulso, com meus braços todos roxos e furados das picadas de agulhas, inchada, vermelha e reluzente igual a um tomate. Mas tô entusiasmada com a novidade.
Torçam por mim!
Este último ano foi bem difícil, tenho entrado e saído de inúmeras e sucessivas crises depressivas.
A depressão tem me acompanhado há anos, agravando-se a partir do momento que precisei parar de trabalhar.
Ao contrário do que a maioria das pessoas acreditam, parar de trabalhar não foi uma escolha ou uma necessidade por causa das crianças. Precisei parar porque a fadiga era enorme e fadigada minha cabeça não funciona.
Tenho me esforçado muito para não me deixar abater, sucumbir à depressão, mas depressão é uma doença e sair dela independe da nossa vontade. Preciso de ajuda, de compreensão, de apoio, mas só tenho julgamento, acusação, condenação.

A cada crise, me sinto pior. E sofro duplamente: pela depressão em si e pelo sofrimento que causo nas pessoas que convivem comigo.
Tenho consciência de que minhas filhas sofrem em me ver sempre prostrada ou mau humorada, que gostariam que a mãe brincasse mais com elas. Mas é difícil pra mim agir diferente.
Na minha cabeça se cria uma confusão, não sei até que ponto estou com fadiga e onde começa a depressão. E se eu não me entendo, imagina os outros. Embora eu me ressinta da falta de compreensão e apoio, também entendo o quanto é difícil conviver comigo e entender que minha falta de interesse por tudo, não tem nada a ver com falta de amor.
Se consigo racionalizar os sentimentos, percebo claramente o quanto sou abençoada por ter a família que tenho, por ter os filhos que tenho, por ter o marido que tenho. Os amo mais que tudo nessa vida e me sinto feliz. Mas esse sentimento de desânimo, de desinteresse que não me permite achar graça em nada independe do amor que sinto. Então eu sofro e sofro ainda mais por entender que também faço sofrer quem eu amo.
É confuso, difícil de explicar. Não é que me falte de algo, mas me falta a perspectiva. Não consigo olhar no horizonte e ver a solução de alguns impasses da minha vida. Muitas coisas que eu gostaria de mudar depende dos outros. É claro que eu posso mudar sozinha, mas além de ser mais difícil, pode gerar ainda mais problemas.
Enfim, continuo me esforçando. Um dia de cada vez.
Sou a favor de que as pessoas cobrem os seus direitos, mas acho que as pessoas tem usado muito essa prerrogativa para atropelar o direito alheio. As pessoas tem direito até de serem ignorantes. Mudar opiniões enraizadas é trabalho de formiguinha, dia após dia, aos poucos. Ninguém muda do dia pra noite. E o que é de gosto é regalo da vida, já dizia minha vó.
Tudo vira motivo pra gritaria, bate-boca e brigas inflamadas. As pessoas parecem se negar a ver o outro lado das histórias, já saem dando sua opinião como se fossem donas da verdade absoluta, geram inimizades por conta de polêmicas que ao meu ver, são tão ou mais improdutivas que a inércia total.
Assuntos que estão “na moda”: consumismo infantil e sexismo.
Também me preocupo com eles, não quero (e nem posso!) criar filhos que pensam que podem ter tudo o que veem na TV, que escolhem seus lanches pelos brinquedos que oferecem e que ficam emburradas se ganham uma barra de chocolate na páscoa ao invés do ovo de igual sabor e quantidade mas 4 ou 5 vezes mais caro.
Também não quero que minhas meninas deixem de experimentar a sensação de subir numa árvore, chutar uma bola, brincar de polícia e ladrão ou empurrarem carrinhos por que isso é brincadeira de meninos.
Mas estão havendo exageros aí. Minhas filhas brincam com o que elas quiserem, desde que não corram riscos desnecessários de se machucarem, mas não vou me ofender se alguém der a elas uma boneca e disser que aquilo é que é brinquedo de menina. Elas também gostam de bonecas, de brincar de casinha e outras brincadeiras típicas do universo feminino. Quanto ao pensamento de que “isso é que é brincadeira de menina”, problema de quem pensa assim.

Outro dia vi uma discussão absurda na internet, sobre o fato de uma marca de chocolate que vem com brinquedo, não identificar se o brinquedo em questão era feminino ou masculino. Uma turma achava um absurdo isso, que criança deve brincar com qualquer brinquedo independente do seu sexo, outra turma defendia a identificação “para não frustrar as crianças que esperam por uma coisa e recebem outra”. Pra mim, o absurdo está em comprar o tal chocolate só pelo brinquedo, que vamos combinar, além de caro pra caramba, nem chocolate nem brinquedo são lá essas coisas, não valem tanto estresse.
De outro lado, mães que apoiam com unhas e dentes o direito de escolha dos brinquedos que seus filhos quiserem brincar, defendendo inclusive que não haja sessões separadas por preferências femininas e masculinas de brinquedos nas lojas, será que achariam bom escolher suas roupas e sapatos em lojas que não os diferenciasse por gênero?
Eu, por exemplo, não uso sapatos, muito menos de salto, só tênis. Se ao entrar numa loja, acho os tênis femininos muito cheios de frescuras, o que não é absolutamente meu estilo, vou olhar os da sessão masculina e pronto. É só pedir o meu número e experimentar. Serviu? Ficou confortável? Eu gostei? Tô pagando? Então não me interessa se é feminino ou masculino. Quem achar feio que olhe pro outro lado. E sempre foi assim, minha vó já tinha acessos quando me via usando kichute aos 9 anos de idade.
Acho importante que minhas filhas saibam que qualquer roupa ou brinquedo é permitido, mas se elas acham rosa a cor mais linda do mundo, a escolha é delas, já que eu sempre preferi vesti-las de vermelho, roxo, verde e azul.
Entendo que para as mães de meninos isso deve ser um pouco mais complicado, já que o preconceito é muito maior com meninos brincando de bonecas do que com meninas brincando de carrinho, mas não acredito que seja possível acabar com o preconceito a ferro e fogo. Para que os preconceituosos de plantão aceitem que é natural menino brincar de ser papai da mesma forma que meninas brincam de ser mamãe, é preciso que se trate o assunto com naturalidade.
É o que eu penso. Tô muito errada?
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"Todo aquele, pois, que escuta estas minhas palavras e as pratica, assemelhá-lo-ei ao homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha. E desceu a chuva, e correram rios, e assopraram ventos, e combateram aquela casa, e não caiu, porque estava edificada sobre a rocha." (Mt 7, 24-25)
"Nós estamos sentadas, almoçando, quando minha filha casualmente menciona que ela e seu marido estão pensando em “começar uma família”.
— Nós estamos fazendo uma pesquisa — ela diz, meio de brincadeira. — Você acha que eu deveria ter um bebê?
— Vai mudar a sua vida — eu digo, cuidadosamente, mantendo meu tom neutro.
— Eu sei — ela diz. — Nada de dormir até tarde n
os finais de semana, nada de férias espontâneas…
Mas não foi nada disso que eu quis dizer. Eu olho para a minha filha tentando decidir o que dizer a ela. Eu quero que ela saiba o que ela nunca vai aprender no curso de casais grávidos. Eu quero lhe dizer que as feridas físicas de dar à luz irão se curar, mas que tornar-se mãe deixará uma ferida emocional tão exposta que ela estará para sempre vulnerável.
Eu penso em alertá-la que ela nunca mais vai ler um jornal sem se perguntar: “E se tivesse sido o MEU filho?”; que cada acidente de avião, cada incêndio irá lhe assombrar; que quando ela vir fotos de crianças morrendo de fome, ela se perguntará se algo poderia ser pior do que ver seu filho morrer.
Olho para suas unhas com a manicure impecável, seu terno estiloso e penso que não importa o quão sofisticada ela seja, tornar-se mãe irá reduzí-la ao nível primitivo da ursa que protege seu filhote; que um grito urgente de “Mãe!” fará com que ela derrube um suflê na sua melhor louça sem hesitar nem por um instante.
Eu sinto que deveria avisá-la que não importa quantos anos investiu em sua carreira, ela será arrancada dos trilhos profissionais pela maternidade. Ela pode conseguir uma escolinha, mas um belo dia entrará numa importante reunião de negócios e pensará no cheiro do seu bebê. Ela vai ter que usar cada milímetro de sua disciplina para evitar sair correndo para casa, apenas para ter certeza de que o seu bebê está bem.
Eu quero que a minha filha saiba que decisões do dia a dia não mais serão rotina; que a decisão de um menino de 5 anos de ir ao banheiro masculino, ao invés do feminino, no McDonald's, se tornará um enorme dilema; que ali mesmo, em meio às bandejas barulhentas e crianças gritando, questões de independência e gênero serão pensadas contra a possibilidade de que um molestador de crianças possa estar observando no banheiro.
Não importa o quão assertiva ela seja no escritório, se questionará constantemente como mãe.
Olhando para minha atraente filha, eu quero assegurá-la de que o peso da gravidez ela perderá eventualmente, mas que jamais se sentirá a mesma sobre si mesma; que a vida dela, hoje tão importante, será de menor valor quando ela tiver um filho; que ela a daria num segundo para salvar sua cria — mas que também começará a desejar mais anos de vida, não para realizar seus próprios sonhos, mas para ver seus filhos realizarem os deles.
Eu quero que ela saiba que a cicatriz de uma cesárea ou estrias, se tornarão medalhas de honra.
O relacionamento de minha filha com seu marido irá mudar, mas não da forma como ela pensa. Eu queria que ela entendesse o quanto mais se pode amar um homem que tem cuidado ao passar pomadinhas num bebê ou que nunca hesita em brincar com seu filho. Eu acho que ela deveria saber que ela se apaixonará por ele novamente por razões que hoje ela acharia nada românticas.
Eu gostaria que minha filha pudesse perceber a conexão que ela sentirá com as mulheres que, através da história, tentaram acabar com as guerras, o preconceito e com os motoristas bêbados.
Eu espero que ela possa entender por que eu posso pensar racionalmente sobre a maioria das coisas, mas que me torno temporariamente insana quando discuto a ameaça da guerra nuclear para o futuro dos meus filhos.
Eu quero descrever para minha filha a enorme emoção de ver seu filho aprender a andar de bicicleta.
Quero mostrar a ela a gargalhada gostosa de um bebê que está tocando o pelo macio de um cachorro ou gato pela primeira vez. Quero que ela prove a alegria que, de tão real, chega a doer.
O olhar de estranheza da minha filha me faz perceber que tenho lágrimas nos olhos.
— Você jamais se arrependerá — digo finalmente. Então estico minha mão sobre a mesa, aperto-lhe a mão e faço uma prece silenciosa por ela e por mim e por todas as mulheres meramente mortais que encontraram em seu caminho esse que é o mais maravilhoso dos chamados; esse presente abençoado de Deus, que é ser mãe."