Minha mãe nasceu numa cidade chamada Vacaria,que fica nos campos de cima da serra, região mais fria do Rio Grande do Sul. Por causa da distância, íamos lá uma vez por ano, ás vezes menos que isso, visitar meus avós, tios e primos e ficávamos apenas um final de semana. Pra mim, era o passeio mais esperado do ano. Embora fosse um mundo bem diferente do que eu estava acostumada, amava visitar eles.
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| Catedral de Vacaria - Foto de Ederson Almeida RS Virtual |
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A casa dos meus avós não tinha banheiro, só uma patente nos fundos da casa. Aquela casinha velha, caindo aos pedaços e mal cheirosa no meio do mato no fundo do pátio era a única parte ruim da visita. Acostumada desde pequena com banheiro dentro de casa, usar a tal patente era um suplício, verdadeiro tormento, mas fazia parte do pacote. Era isso ou o penico. Eca!
A casa toda era muito simples, de madeira, teto baixo, os quartos num degrau acima, a varanda dos fundos onde se tomava banho num chuveiro improvisado(não tinha luz elétrica nem água encanada) e onde mais tarde finalmente se fez um banheiro, uma cozinha grande com fogão à lenha, a cadeira da vovó ao lado, onde ela sentava pra tomar o seu chimarrão balançando a perna, mania que é marca registrada da família, assim como um teste de DNA e nos faz rir sempre que nos lembramos disso.
Vovó partiu cedo, eu tinha apenas 7 anos, as lembranças que tenho dela são poucas. Lembro mais dela sentada em sua cadeira ao lado do fogão, o cabelo branquinho, a voz doce e fraca, debilitada pela doença. Às vezes ficava brava com a bagunça dos primos e dava uma bronca, mas lembro mesmo da sua aparência frágil e doce.
Vovô era meu chapa. Brincava comigo, me fazia as vontades, me levava pra passear. Éramos muito amigos. Tinha o cabelo e a barba bem branquinhos também e fumava cigarro de palha. Ainda lembro do cheiro dele, que diferente do que possa parecer, era gostoso. Também partiu cedo, apenas 4 anos depois da vovó, vítima de um grave acidente.
Tinha ainda tia Alady e tio Adolpho, ela irmã da minha vó e que criaram minha mãe. Ela parecidíssima com minha vó tanto na aparência quanto no jeitinho, querida. Ele sempre foi meio grosseirão, gostava muito de mim e não sabia o que fazer pra me agradar. Me achava fofinha e me mordia. Morria de medo dele. Depois que eu cresci um pouco e entendi que ele fazia aquilo porque gostava de mim, parei de lutar contra ele e passamos a ser bons amigos. E ele parou de me morder...
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| Vô Vilmar, Tios Nenê e Marilene, mãe e crianças |
Fora meus avós, que eu amava visitar, também tinha meus tios e primos, que via tão pouco que às vezes nem lembrava o nome de todos, confundia as famílias sem saber ao certo quem era irmão de quem ou filho de que tio ou tia (isso quando bem pequena, é claro) mas adorava estar com eles. Eles levavam uma vida ainda mais simples do que a minha, mas eram mais livres, andavam descalços, brincavam na rua sem medo, caminhavam sozinhos pela cidade toda, coisas que eu não podia fazer ou porque na cidade grande não era seguro ou porque minha mãe simplesmente não deixava.
Foi essa liberdade e simplicidade sempre repleta de alegria que eu via neles que me fazia desejar um dia ir morar no interior, tanto que acabei aqui em Cachoeira do Sul, um pouco além do fiofó do mundo. A vida no interior é mais difícil, mais simples, mas é mais saudável e livre.
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| Tio Adolpho e tia Alady, tia Hilda, João, Graça e crianças |
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Mas as visitas aos parentes em Vacaria ainda tinham um ingrediente a mais: o frio. Eu nunca gostei de inverno e era um problema pra mim quando íamos pra lá, pois meu pai tinha o sonho de conhecer a neve e acabávamos indo quase sempre no inverno. E Vacaria é frio, muito frio. Aquele frio que parece entrar nos ossos da gente. Tínhamos que nos enfiar dentro de tantas roupas que o simples ato de ir ao banheiro se tornava uma tarefa árdua e demorada.
Mas lá, todas as casas tinham fogão à lenha, eternamente acesos, uma chaleira d'água em cima para o chimarrão, ás vezes uns pinhões assando na chapa ou uma polenta. Em cada casa que entrávamos, erámos recebidos com muita alegria e acolhimento e por mais que disséssemos ter acabado de almoçar na casa anterior, não saíamos daquela sem comer alguma coisa. Havia sempre pão feito em casa, pão italiano, aquele grandão delicioso, doces de frutas, cucas e café preto feito na hora. Eu que ERA muito magrinha, não gostava de comer nada, lá me fartava tanto que voltava para Porto Alegre fofa.
Outra coisa boa de lá era dormir. Como íamos muito pouco pra lá e todo mundo queria nos agradar eu pelo menos, que era pequena, dormia sempre na melhor cama que eram macias com travesseiros enormes e fofos e cobertas com acolchoados tão pesados que nem dava pra se mexer e mudar de posição durante à noite. Adorava isso.
Eu vi neve duas vezes na vida, uma delas em Vacaria quando fomos pra lá visitar os tios e primos (vovó e vovô já não existiam mais) e meus pais foram embora e eu fiquei por mais uns dias, pois estava de férias. Outra vez foi na única vez na vida que nevou em Porto Alegre, em agostotv anunciavam que ela cairia por lá, ele ainda hoje não a conhece.
Não vou pra lá há muitos anos. A última vez foi em dezembro de 93, fazia pouco tempo que eu e o Carlos estávamos juntos e levei ele para conhecer a cidade e a parentada. Sinto saudades. Meus primos também se tornaram adultos, (claro!) casaram, tiveram filhos, alguns descasaram e voltaram a casar, muitos saíram de lá. Reencontrei alguns, aqui ou ali, hoje tenho contato com muitos pela internet, mas nada que se compare aos tempos das visitas à casa dos meus avós.
Essas lembranças todas me vieram à tona porque além do frio de renguear cusco que está por aqui essa semana, a tv noticiou neve essa madrugada em Gramado e Vacaria. Meu pai deve ter esbravejado um bocado...