Desde criança sofria muito em situações assim. Na escola, toda vez que tinha falar em voz alta, mesmo conhecendo toda a turma e tendo muitos amigos entre os colegas, ficava vermelha igual um pimentão, meu coração disparava parecia querer fugir de dentro de mim, minhas pernas tremiam e minha voz sumia. Era um horror. Quando tive as gêmeas, meu neurologista me convidou a dar um depoimento num evento sobre Esclerose Múltipla que aconteceu em Porto Alegre no Hospital de Clínicas em agosto de 2008.Como a EM se manifesta geralmente entre os 20 e 40 anos e atinge mulheres em maioria, acaba afetando jovens ainda solteiras, ou recem casadas, que vêem seus planos de terem filhos abalados. Muito médicos ainda desaconselham a gestação em mães portadoras de EM, mas o meu depoimento serviria para desmistificar um pouco isso.
Afinal a EM tem um componente genético, mas não é hereditária. Além disso, a gravidez por si só é imunomoduladora, ou seja, nos protege de novos surtos que são raros em gestantes. A única contra-indicação é o fato de que a mãe precisa estar em condições de tomar conta do bebê, então mulheres já muito debilitadas pela doença precisam avaliar bem e contar com a ajuda de familiares e amigos antes de decidirem por um filho, até porque durante a gestação (e até mesmo antes dela se for planejada) os remédios são suspensos.
Quando surgiu o convite eu aceitei na hora, pois julgava importante falar da minha experiência, mas ao mesmo tempo me deu um pânico total. Mas contei com a confiança do dr. Alessandro e com o apoio das enfermeiras Silvete e Suzana, que além de tomarem conta de mim, são uns amores e acabaram se transformando em amigas. O apoio e a certeza delas de que eu daria conta me levaram a seguir adiante.
Chegado o momento, pensei em desistir, inventar uma desculpa e desaparecer, mas meu senso de responsabilidade falou mais alto.
O evento tinha vários momentos distintos durante um fim de semana inteiro então fomos eu e meu marido à Porto Alegre e nos hospedamos em um hotel junto com outros participantes do evento. Aí o lado bicho-do-mato bateu forte, não entrava num hotel desde que era criança, nem sabia como me comportar em um. O grupo todo já se conhecia e nós ficamos bem deslocados (meu marido é tão ou mais bicho do mato que eu) e quando fomos para o local do evento onde eu faria o tal depoimento meu estômago doía de tanto pânico.
Mas chegada a hora, subi no palco e com o microfone na mão não me restou outra alternativa a não ser confessar à plateia que minhas pernas estavam tremendo e que eu não sabia muito bem no que aquilo ia dar. Arranquei algumas risadas e acabei relaxando um pouco. Falei. Nem sei bem o que. Apresentei algumas fotos, da família, dos amigos, da barriga enorme, das gêmeas ainda na UTI e depois dos meus filhos todos juntos quando elas já estavam maiores um pouco. Ficou bacana.
Meu depoimento foi logo no início do evento, no final do primeiro bloco. Durou uns 10 minutos, se tanto. Mas ainda durante o restante das palestras, muita gente vinha me perguntar algo sobre a gravidez, as meninas ou simplesmente dizer que tinha se emocionado com o meu depoimento.
De bichinho acuado num cantinho, acabei me tornando centro das atenções para muitas pessoas, principalmente mulheres, desejosas de engravidar, mas sem coragem, temendo o lado negativo que a doença traria para esse momento.
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| Momento Tenso |
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| Dr. Alessandro |
Depois dessa ocasião, surgiu outra no ano passado, desta vez eu e meu marido fomos convidados a dar uma palestra num encontro de casais. Embora tenha ficado muito nervosa novamente, minhas pernas já não tremeram tanto, e descobri o segredo de falar em público: dizer que não sou uma profissional do ramo, só uma pessoa comum, convidada a falar sobre minhas experiências e que não tem obrigação de ser perfeita. Adorei a experiência e principalmente a superação como resultado dela. Tô até topando novos convites...





