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sábado, 1 de fevereiro de 2014

Félix e Niko

O tão aguardado e comemorado primeiro beijo gay no horário nobre no canal de tevê mais assistido do Brasil me fez finalmente tirar do fundo do meu coração uma história que há tempos tenho ensaiado em contar aqui.

Félix e Niko

Quando eu tinha 14, 15 anos – e toda semana me apaixonava perdidamente por alguém diferente – tinha um menino que era o sonho de consumo de 9 entre 10 meninas do bairro. Eu é claro entre elas.

 

Mas aí aconteceu de se mudar para lá um homem, jovem ainda mas já adulto, gay (o primeiro que conheci, vi de perto), e que passou a concentrar a atenção de todos os meninos da nossa turma, em especial o tal do sonho de consumo. Ignorante que eu era, alimentada pelas asneiras ouvidas dos adultos, passei a odiar a criatura com todas as minhas forças.

 

Não me lembro mais quais eram as meninas que compartilhavam desse meu sentimento, nem como elas lidaram com a questão, lembro só de mim e do quanto esse episódio me modificou.

 

Nós não entendíamos porque os meninos gostavam tanto de se enfiar no apartamento do cara e cada boato que ouvíamos acreditávamos ser verdade e começamos uma espécie de campanha de difamação. Havia de tudo nessas histórias, desde droga rolando solta como se não houvesse amanhã até coisas realmente impublicáveis.

 

Certo dia, já de saco cheio da situação, o cara desceu do seu apartamento e foi até nós e com toda a calma e elegância do mundo, nos convidou para conhecer o seu apartamento. Disse que nós falávamos mal dele, mas não o conhecíamos e que deveríamos dar a ele a chance de ao menos se apresentar.

 

Como disse, não lembro mais dos detalhes, mas sei que eu fui. Chegando lá ele nos mostrou todo o apartamento, que era igual a qualquer outro. Não havia nada de pornográfico, maquiavélico ou diabólico lá, era um apartamento comum, igual ao meu. Ele nos tratou como adultas e não como crianças e falou abertamente sobre sua vida e o porque dos meninos gostarem tanto de ir lá, porque ele os tratava como adultos, dava a eles a liberdade de falarem sobre sexo, romances, dúvidas. Lhes dava liberdade e conselhos. Era um lugar onde eram livres e se sentiam como adultos numa fase de tantas descobertas e incertezas.

 

Aos poucos, meio por curiosidade, meio por sentir essa mesma liberdade junto dele, nos tornamos amigos. Isso virou mais um motivo de guerra com minha mãe (entre tantos outros nesta fase difícil). Não que meus pais tivessem preconceito (pelo menos não abertamente), mas temiam principalmente pelo fato de ele ser mais velho, mais experiente e possívelmente capaz de me manipular.

 

Não vou ser hipócrita de dizer que não tenho nenhum tipo de preconceito, mas digo de cabeça erguida que luto com todas as minhas forças contra qualquer mínima manifestação deste tipo que surja em mim. Hoje procuro conhecer sempre o outro lado quando algum assunto me causa desconforto. Sou um ser imperfeito, mas aprendi lá atrás que conhecer é sempre a melhor saída.

 

Eu briguei com minha mãe por causa dele, defendendo meu novo amigo, pois eu já tinha discernimento o suficiente para entender o quanto o tinha julgado errado e de quanta coisa nova aprendia com ele.

 

Miguel foi o responsável pelo meu primeiro confronto com o preconceito. Como eu sempre digo desde então, o preconceito é basicamente fruto da ignorância, de não saber. E como temos medo do desconhecido, formamos pré-conceitos a cerca de certos assuntos ou pessoas.

 

Mas não foi apenas isso. Com a nossa convivência aprendi muitas lições, a maioria prefiro não divulgar por não vir ao caso, apenas manter aqui dentro do meu coração, mas além de aprender a não julgar sem conhecer, de entender o amor como sendo um sentimento e não uma forma de fazer sexo, aprendi a me dar valor como pessoa, a não correr desesperadamente atrás do amor e ter calma e olhar atento para percebê-lo chegar. Essa última lição eu demorei mais a aprender, mas era nele e nas suas palavras que eu pensava quando agia errado e foi nele que pensei quando finalmente agi certo, mesmo que já não estivéssemos mais próximos nessa época.

 

Há quase dois anos atrás nos reencontramos depois de muitos anos, no reencontro da turma do bairro que contei aqui. Desde então nos falamos pelo face de quando em quando. De todas as pessoas que foram importantes na minha vida, ele foi quem mais me ensinou, me fez crescer, nem sempre de forma suave, mas sempre com verdade, franqueza. Sou grata por tê-lo tido na minha vida num momento de formação o meu caráter e de ainda tê-lo por perto hoje.

 

Quanto ao menino, aquele que era o sonho de consumo da mulherada, eles estão juntos até hoje, quase trinta anos depois. Ele continua lindo, dono do sorriso mais cativante que já conheci e também continuamos amigos.

 

Por isso resolvi contar essa história hoje. Sei o quanto ele sofreu e ainda sofre com o preconceito, apesar de ser bem resolvido e se cercar de pessoas que o aceitam e amam. O beijo entre Félix e Niko, numa cena delicada, sensível, muito bonita e nada apelativa, deve ter sido emocionante pra ele, uma libertação. Ao menos pra mim foi, libertadora.

 

Ao meu amigo Miguel, que foi capaz de usar de tanta sensatez quando atacado e munido de paciência e muita franqueza conquistou minha amizade e amor, toda minha gratidão e carinho.

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