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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Mais de Carpinejar

Li este texto no blog do Fabrício Carpinejar e achei tão belo e verdadeiro que quis compartilhar com vocês. Ele fala em colocar a dor para trabalhar, em fazer dela algo útil ao nosso crescimento. Maravilhoso. Já postei aqui outro texto dele, Mão Grande. (veja aqui)


Minha amiga Dora perdeu seu filho.

Ela disse que o momento mais difícil do luto foi quando ela riu de uma piada durante jantar entre amigas. Já havia completado dois anos do acidente e um ano que limpara o quarto do adolescente e oferecera suas roupas e pertences para campanha do agasalho.
Não conteve o riso, ele veio, cristalino, por uma história boba. Ela se penalizou pela alegria, acreditou que traía seu filho com a gargalhada, que não poderia mais ser feliz depois da tragédia familiar, que deveria seguir com a feição contraída e casmurra para homenagear a tristeza e avisar aos outros da longevidade e importância de sua ferida.
A lealdade tinha que ser séria, ornada de renúncias. Para indicar que a viuvez de ventre é definitiva, com o berço dos olhos petrificado em jazigo.
Ela se sentiu culpada por rir, envergonhada perante os céus, pediu desculpa ao filho, prometeu que estaria mais concentrada dali por diante e que o descontrole não se repetiria.
Mas ela quebrou a palavra, e riu novamente, como é próprio da vida superar o pesar de repente. Seu rosto agora participava da conversa com todas as rugas e covas. Bateu vontade de cobrir os lábios de batom para brilhar inteira.
Dora me segredou uma frase pura, que guardei na caixinha de sapatos de minha infância:
– Foi uma injustiça meu filho morrer, mas não poderia deixar a morte de meu filho me matar.
Doralice sempre me surpreendeu pela sua lucidez. Foi minha professora de matemática na Escola Estadual Imperatriz Leopoldina. Na última semana, passei pela frente de sua casa no bairro Petrópolis e arrisquei apertar sua campainha. Ela me recebeu com um longo abraço e me convidou a entrar. Reparei que pintava na varanda.
– Começou a pintar, Dora?
– Eu? Não...
– O que é essa tela? (eu me aproximei da moldura que reproduzia uma praia no inverno)
– Ah, é minha dor que estava pintando, coloquei minha dor a se mexer, a aprender algo de útil, e parar de me incomodar.
E concordei com seu raciocínio. Quantas vezes abandonamos nossa dor no sofá, vadia, assistindo TV? Quantas vezes permitimos que ela fique o dia inteiro dormindo, lembrando bobagens? Nossa dor sozinha, sem emprego, sem fazer nada, desejando morrer no escuro. Nossa dor comendo às nossas custas, terminando com os nervos, o casamento, as amizades.
Dor é feita para trabalhar, senão adoecemos no lugar dela.

 
 
Publicado no jornal Zero Hora
 
Coluna semanal, p. 2, 20/09/2011
 
Porto Alegre (RS), Edição N° 16831






Por: Tuka Siqueira / @TukaSiqueira
Comentários
4 Comentários

4 comentários:

  1. Bom dia!!!
    Perfeito o texto!!!
    Era exatamente o que eu precisava ler hoje!!!!
    Obrigada por compartilhar!!!

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  2. E como deve ser difícil passar por essa fase hein!!! Na verdade é difícil de passar por tudo isso!!
    Bjos
    Ana

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  3. É verdade... essa deve ser a pior dor pra uma mulher. Já vi isso acontecer duas vezes: primeiro meu primo morre aos 12 em um acidente bobo em casa, com a rede de descansar. Só agora, 14 anos depois, foi que meu tio conseguiu colocar uma rede em sua varanda. A dor continua lá, mas ele não deixou de viver, não! E no ano seguinte ao falecimento do meu primo ele e minha tia já estavam bem.
    E agora, final do ano passado, outro primo de 18 anos faleceu (outro acidente com rede) e meus tios ainda não superaram, não. Mas ainda é recente, acho.
    O fato é q não podemos deixar o luto tomar conta da vida. É como viver a morte!
    Conheci o Carpinejar há pouco tempo e adorei! Li foi um livro q, pra mim, foi maravilhoso!
    Beijos

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  4. Muito forte e verdadeiro... Não tenho dores mas tenho algumas mágoas e acho que vou coloca-las para trabalhar rss...

    Adoro seu blog!

    Beijos

    Flavi

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